21.12.06

Pasteis de Nata e Croissants

Hoje vou subverter a que tem vindo a ser a logica deste blog.
Estou em Lisboa e portanto vou falar de Lisboa. Estou em Lisboa e estive na Gulbenkian num dia de sol esplendoroso em Dezembro. Estive na Gulbenkian e fui a cafeteria. Fui a cafeteria e sentei-me na esplanada, rodeado do oasis que é aquele jardim e pedi um pastel de nata e um leite UCAL pelos quais paguei 2,20€. Poucas vezes um pastel de nata e um leite com chocolate me souberam tão bem e provavelmente nunca me custou tão pouco pagar 2,20€ por um bolo e uma bebida.
O que eu quero dizer com isto é: um bom pastel de nata e um leite UCAL valem qualquer croissant e chocolat chaud, deixemo-nos de peneiras. Tal como o palmier coberto que eu comi noutro dia na Decathlon (sim, na Decathlon) vale qualquer pain au chocolat ou croissant aux amandes de uma boulangerie parisiense.
É claro que o jardim da Gulbenkian e o sol tem culpa nisto, mas hà que dizê-lo: algum nacional é bom.

11.12.06

Descubra as Diferenças

















Mr.Blonde, Mr. White, Mr.Orange, Mr. Brown...

26.11.06

Aqui esta a tão esperada contribuiçao da Joana e do Duarte; um chef-d'oeuvre meus amigos:

"JOANA: Porque é que voltarias a Paris?

DUARTE: É uma cidade bonita, viva, e tão grande que abraça várias épocas…

Como assim?

Vê-se pela arquitectura dos prédios, pelo seu feitio e ornamentos. As ruas estão cheias de pessoas, de árvores, livrarias, salas de cinema, lojas de música, restaurantes, pastelarias e brasseries… tudo locais de encontro.
É uma cidade com charme, uma certa harmonia que leva a imaginação a ver as cenas de cinema/da vida mais banais, as mais alegres, as mais tristes, e as mais românticas.
Não me posso esquecer que foi lá que os meus pais se encontraram, se conheceram, e apaixonaram…

E aventura, Duarte? Eu preciso de viver em constante aventura. Para ti, Paris também tem aventura? *

De repente lembro-me de uma cena – de um filme que não vi – do Bande à Part, de Jean-Luc Godard, em que três jovens correm pelo Louvre dentro e tentam bater um tempo recorde de visita. Isso é aventura. Mas não fui eu quem a viveu, nesta realidade, apenas em sonho.
Apesar de tudo, poderia contar a história que foi carregar com a minha mala, pela noite fora, dentro do metro, até encontrar, horas depois a porta de casa do meu irmão. Ou então algo mais singelo/simples como um mero olhar correspondido com uma bela menina francesa. Isso também é aventura, pôs o meu coração a bater como uma locomotiva!

Devo dizer que tiveste uma atitude corajosa e de verdadeiro aventureiro ao pedires a bomba parisiense, a grande (e à francesa) crepe com nutella e banana. E, desculpa interromper, mas não posso deixar de dizer que, nesta semana parisiense, descobri um Duarte muito observador face a estes pormenores (ou não), digamos que… sentimentais. Infelizmente não lhe fui muito compreensiva: quando ele achava romântico, eu achava chato, parado; quando eu achava divertido, ele achava exagerado, espalhafatoso. Mas há que dizer, sim, que tivemos os nossos momentos de aventura, principalmente quando ele assumia a liderança da expedição, e andávamos 500 metros para o lado oposto (salvou-nos o mapa michelin inúmeras vezes). Aventura da estadia foi mesmo a ida à Dama das Camélias no Palais Garnier, basicamente: sentados no chão, uma hora na bicha, com o rabo frio; correr debaixo de uma chuvada com uma baguette debaixo do braço; o problema informático da bilheteira; os dois bilhetes de visibilité réduite; a interminável subida até aos lugares mais perto do Chagall. Excusado será dizer que, mesmo que só tenha visto metade do palco (e vá-se lá saber porquê acho que o canto que não via era onde aconteceram mais coisas, mas também acho que isso é sempre assim…) valeu a pena. Claro! Foi ver ao vivo os domingos à noite do mezzo. Foi ver ao vivo os DVD’s de ballets que compramos na fnac.

Devo admitir que pela primeira vez o meu sentido de orientação falhou, e não foi só uma vez!
Quanto à Opera, acho que fizeste bem em assistir à peça, mesmo que de longe, o espaço em si vale a pena; digo também que não pude deixar de reparar que foste bem acompanhada. Do meu lado, tive um jantar agradável com os nossos irmãos, tínhamos à mesa tudo para uma boa conversa, cabeças interessantes, queijo e vinho (do bom, perdoo-me o Francisco pela escolha).
No que toca a nossa sensibilidade é verdade que somos diferentes, e ainda bem, mas não exageremos – recordo alguns momentos em que partilhámos opiniões semelhantes. Infelizmente são momentos que não sei especificar, fica o mistério do que é vago mas vivido. Disseste-me que não gostavas das cores da cidade. Já pensaste que, se calhar, fazem parte do seu charme? O que seria Paris se fosse uma cidade toda colorida como o centro Pompidou? É isso… tudo absurdo, como dizias.

Lisboa tem as suas cores, absurdas, sim, já sei que não gostas. Uma semana em Paris deixou-me com falta de cor. Não pude deixar de me … enfadar com a moda que se adivinhava nas montras para este Inverno. Preto, branco, riscas e cinzento. Faltaram-me a claridade branca dos passeios da nossa calçada à portuguesa. Compensou o marcado Outono como nunca vi em mais lado nenhum. Para mim Paris é um filme a preto e branco (não quer dizer que não goste … e Duarte, dispenso a tua crítica aos meus (des)gostos cinéfilos – discussão que, devo dizer, nos acompanhou constantemente pelas nossas promenades) em que caem folhas encarnadas e laranjas. Às tantas fez-me impressão tanta racionalidade naquelas ruas, simétricas, de rigor e equilíbrio demasiado. Exactamente como no liceu: será que até para os prédios fazem problématiques? É que me angustia Paris, cidade sem erro. E quando o erro significa humanidade eu gosto das suas consequências, o absurdo lisboeta.

Tens razão, mas se reparares até Lisboa tem traços assim, sobretudo o que foi construído sob a autoridade do Marquês de Pombal. Gostavas que a cidade fosse mais como o mundo da menina Amélie Poulain?
Agora que me lembro da nossa estadia, penso que poderíamos ter realizado uma verdadeira maratona dos museus!

Museu, museu… é a cidade! Qual Louvre! Por isso, de certa maneira fizemos essa maratona, literalmente, porque andámos sempre a pé! Embora tenha que admitir que me rendi extasiada face à magia do Musée d’Orsay! É que estar em Paris é como um constante relembrar, insistir e encorajar nas coisas a que me dedico todos os dias em Lisboa, mas lá, tudo é “upgraded, como se lá fosse a capital da minha vida: as bailarinas do Degas no Musée d’Orsay; o ballet da ópera de Paris; a loja do Palais Garnier; as lutheries de grandes vitrinas inundadas de moldes de madeira ainda branquinha de violinos, violas e violoncelos…; a loja de partituras em St. Michel com estantes de partituras novas e usadas até ao tecto e a compra de fininhos blocos de feuilles doubles pautadas; os músicos mongóis à frente do Pompidou; os postais do Noureev; o livro de análise e composição em chinês a 4 euros na Shakespeare and Company…

Uma nota mais sobre os museus e calo o assunto. O Musée d’Orsay, velha estação de comboios, tem uma colecção maravilhosa da época impressionista que é de meu gosto pessoal. Mas para além de cidade-museu, Paris é essencialmente uma cidade eclética, desde os bairros jovens e animados como o são Montmartre, le Marais, St. Germain etc… ao quotidiano, pacato e chic do 16ème arrondissement. E no meio disto tudo sempre a cultura, acima do resto. Com a Joana e o Francisco tive a oportunidade de sair à noite umas quantas vezes, ver espectáculos, ir ao cinema, conversar em bares, que fizeste tu com o teu irmão?

Pois é, ainda não te contei. Com o meu irmão tive uma revelação, uma primeira vez. Uma experiência que não te aconselho a fazer assim de qualquer maneira porque marca qualquer um. Duarte, o meu irmão levou-me a comer o meu primeiro kebab. No último dia à noite na rue mouffetard experimentei essa requintada iguaria para depois irmos ver o Benfica na champions para um pub com os amigos dele. Uma noite tipo “melting pot”, repleta de experiências étnicas. De francês só teve mesmo a rue mouffetard com as suas pequenas lojinhas a fechar ao fim do dia. De certeza não te esqueceste também do nosso passeio, os três, no Marais, absortos pelas lojas de postais e as de roupa em segunda mão em que nos esforçamos por encontrar o casaco à Corto Maltese que tanto desejaste! Ou quando vocês se chocaram por eu gostar duns ténis só porque eram cor-de-rosa com riscas verdes. Não percebo! E Versailles, lembras-te? Fomos também com o Francisco e o amigo dele. Foi giro, mas tinha esperança de encontrar as passagens secretas que descobri na Géo…

Haw haw haw, como se riria Rasputine, amigo de Corto Maltese. Bastou-me a descrição do teu irmão para perceber que esse Kebab seria uma aventura. Lembro-me de ele dizer que nunca se deveria comer um desses em frente a uma rapariga bonita, seria o suicídio garantido de uma possível relação. O passeio pelo Marais, e mais tarde pela cidade fora foi agradável. Recordo que estava um fim de tarde aconchegante, o sol estava quentinho, e a luz bonita, o que era bom tendo em conta o tempo errático com que nos deparamos nalguns dias. Guardo sobretudo a memória do quão acolhedor eram certos bairros, dos seus parques cheios de pessoas, de crianças saídas da escola, de famílias, e de namorados sentados em bancos ou estendidos na relva (ah, isto lembra-me que ainda estou para ver o Splendor In The Grass com a Natalie Wood e o Warren Beatty).
Enfim, mais que estar em Paris, foi bom estar em companhia de amigos, de família, e de pessoas que embora não o sejam, fazem parte desse mundo pequeno, seguro e confortável que é a família. Lembro também que não estava no melhor dos meus dias, e que apesar disso, a estadia correu bem graças a essas pessoas. Afinal, o que faz a cidade não é o local em si mas as pessoas que o habitam.
A Paris, cidade viva, local eterno de encontro entre amigos, e apaixonados… "

24.11.06

Bob Dylan em Paris

Bob Dylan foi avistado em Paris em setembro passado, aquando de uma curta visita...Houve quem tivesse a sorte de o cruzar...Aqui na Place Stravinsky.

23.11.06

Como o Duarte afirma no seu último texto, a França parece estar mergulhada num eterno dilema. Entre a liberalização e a protecção social, o seu modelo de Estado e a globalização ("la mondialisation", como se anuncia aqui). E se não forem as próximas eleições a tirá-la desse "problema", há de ser o tempo. Entre Sarkozy e Royal, as diferenças não são assim tantas. Ambos são mediáticos e carismáticos (apesar de um ser pouco mais alto que o Marques Mendes e a outra rigidamente descordenada a andar e às vezes a falar), ambos são populistas e querem "ouvir o povo", Sarkozy quer pôr tudo preso e Royal mostrou o desejo de criar "juízes populares" para avaliar os políticos (...), ambos se apresentam como candidatos da "ruptura", a que já é a palavra chave destas eleições. Mas se Sarkozy é de direita, a sua tentação populista pode fazê-lo desistir de um programa de liberalização da economia e da administração francesa, e levá-lo ao tal proteccionismo francês, apesar de já ter afirmado publicamente, e perante o seu partido, que a globalização era "inevitável". Por isso, julgo que tanto um como o outro podem-se mergulhar nas maiores das ilusões e promessas de campanha. Mas quando a França estiver totalmente à beira da ruptura (e sinais não têm faltado), restará apenas uma alternativa. E a assimilação dessa ideia e da sua urgência estender-se-à da direita à esquerda.

17.11.06

Ségo vs.Sarko

Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy serão mais que provavelmente adversarios directos nas proximas eleições presidenciais francesas. Embora não tenha estado a par da actualidade politica nos ultimos tempos, atrevo-me emitir algumas das minhas impressões:


Ségolène Royal acaba de ser eleita por uma enorme maioria dos militantes como candidata oficial do Partido Socialista. Com 60% dos votos em seu favor esmagou literalmente os seus adversarios, sem precisar sequer de uma segunda volta.Este resultado pode dar um novo folego ao partido, internamente muito dividido pelas diversas lutas entre os seus clãs. Ségolène parece mesmo reunir uma grande unanimidade e se conseguir unir as diversas facções socialistas pode mesmo vir a desafiar Sarkozy.

Assistimos à primeira vitoria do "fenomeno Royal". Ilustre desconhecida (nunca teve um cargo politico de relevo) Ségolène Royal tem-se revelado um fenomeno mediatico e popular do género, ouso dizê-lo, de uma Jeanne d'Arc. Parece-me que se criou um culto à volta de Ségolène, da ordem do fanatismo, sem explicação pois não são com certeza as suas ideias (se alguém as conhecer diga-me...) e propostas que mobilizam as massas.
No entanto, e como qualquer bom socialista em França, Ségolène esta eternamente presa ao seu eleitorado de esquerda e não deve fugir muito ao conformismo secular dos governos socialistas e à tendência imobilista.


Sarkozy esse sim pode ser um candidato de ruptura, como ele proprio afirma (reinvindicando-se mesmo assim gaullista, como não podia deixar de ser, não va ele perder uns fieis eleitores UMP...). Ja não ha duvidas sobre quem sera o candidato da direita UMP para as presidenciais: não ha campanha possivel , como houve no PS, pois os potenciais candidatos (Villepin, Michèle Alliot-Marie e Sarkozy) fazem parte do governo e além disso a logica gaullista do UMP de uma ligação directa candidato-povo impede primarias dentro do partido.

Sarkozy é então o candidato da ruptura: da ruptura para pior. Para uma França aberta ao mercado como muitos pedem, mas fechada à imigração, aberta aos ricos e fechada aos pobres.


A França parece condenada a continuar a sua luta visceral entre liberalização e protecção social, entre a defesa de um Estado providência e as investidas da globalização e não vão ser as proximas presidênciais a muda-lo...

16.11.06

Depois de um longo periodo de hibernação veranil, fazemos o nosso retorno para a temporada 2006-2007 em Paris.

O problema não tem sido falta de creatividade mas sim falta de tempo, este ano arrancou num ritmo infernal que me tem deixado pouca disponibilidade para deambulações cibernéticas.
Mas ja temos alguns textos na calha, aguardamos até uma colaboração do Duarte Valente e da Joana Rolo para enriquecer o blog.
Infelizmente estes textos não vão ter a emoção de serem escritos no presente mas esperemos que tenham o interesse que o recuo pode dar.

Até breve em Paris, Duarte

10.7.06

Pedimos desculpa pela inactividade do blog nestes ultimos tempos, mas passo a explicar: Eu, o Francisco e o Duarte estamos os três em Portugal, logo não estamos em Paris e portanto, por impedimentos de natureza geografica não podemos continuar as cartas de Paris.

Até breve, Duarte

1.7.06

A Moveable Feast

Ontem à noite, eu e o Duarte Graça tivemos uma conversa interessante antes do nosso concerto dos Strokes na Vilette. O Duarte, que partiu hoje de manhã de Paris, para regressar definitivamente a Lisboa depois de um ano de Erasmus, confessou que não sentia que a sua passagem pela cidade tivesse acabado. Levou de certeza algo de Paris com ele, que mais tarde ou mais cedo vai fazê-lo voltar cá.
Hoje pensei muito nas suas palavras, e coloquei-me de certa maneira na sua situação - amanhã de manhã é a minha vez de ir embora, mas sei que em Setembro estarei cá outra vez para pelo menos mais 4 meses. Andei pelas ruas do meu novo bairro, para onde me mudei há relativamente pouco tempo, e vi que tudo nele me agradava, mesmo as coisas mais "feias" tinham a ver comigo. Nesta fronteira entre o 6ème e o 5ème está o bairro cinéfilo da cidade, onde estão os cinemas que passam os filmes antigos, está a Sorbonne, os Jardins do Luxemburgo, as galerias de arte, o Sena, muitos cafés, muitos bares, e muito charme. E hoje, ao saber que amanhã me levanto para sair da cidade, mesmo que por apenas 2 meses, sinto o que o Duarte me disse e o que li também em Hemingway - sou um daqueles jovens que se vai embora da cidade, mas que sabe que Paris marcou e vai marcar invariavelmente o meu destino, para onde quer que vá. Mais que um ponto de passagem, é um ponto de onde saimos e deixamos algo. Deixamos algo em Paris que nos faz sempre voltar.
Depois dos meus primeiros 6 meses na cidade (passados aos intervalos com Lisboa), sei que vou voltar para onde vim mas que vou estar sempre a pensar nesse meu bairro, nas pessoas, nos cafés, na minha casa, no que deixei, que é meu, e que vou reencontrar. Como dizia Gene Kelly no American in Paris de Vicente Minelli, Paris entra em nós e abre o nosso coração, para nos deixar eternamente assim.
Por outro lado, aprendo cada vez mais a gostar do "pior" da cidade. Sinto-me cada vez mais próximo do à vontade chateado dos parisienses, das bocas dos empregados de mesa, das remarques que se fazem ouvir de algumas pessoas na rua, das mil maneiras que os parisienses têm para mostrar que estão chateados - ras le bol, 'y en a marre, saloperie, pas possible, c'est pas fini, sacré bol, bordel, vraiment, alors là, c'est parti, etc, etc, etc... Mas tanto começam a falar assim como acabam com uma frase que parece expressão popular, mas que na verdade está reservada aos metros quadrados daquele café ou daquela loja. É uma maravilha.
Enfim, gostaria muito de estar cá muito mais tempo, mas sei que também gostaria de conhecer outras cidades. Mas já sei que no final deste ano, fique ou não fique, já deixarei um pouco de mim neste bairro e nesta cidade.

14.6.06

Passageiro Frequente

Hoje, mais uma viagem Paris-Lisboa. Pela primeira vez desde o princípio deste ano, com uma média de 3 viagens por mês, o vôo estava a horas. O embarque foi feito exactamente na hora prevista. Fantástico. Eu sabia que alguma coisa teria que acontecer. Eis que olho para fora, tentando espreitar entre a luz e o calor do dia quente de Verão, para ver se o avião, de facto, já chegou. Não o vejo em lado nenhum. Está um calor tremedo. Uma pessoa vem a Paris, traz os miúdos, e ainda apanha com este calor. Isto parece Lisboa, não há direito. Olho para trás, e vejo que metade dos passageiros são crianças, tudo com t-shirts da Disneyland. De repente, vejo um autocarro do aeroporto chegar. Parece que vamos ter que ir de boleia até ao avião. Que chatice. Estou cheio de calor.
Já nos conseguimos todos enfiar nesta coisa. Então, não é aquele o nosso avião? Diz ali TAP pá. Para que é que ele está a dar esta volta toda? Querem ver que ele se vai enganar e ainda nos enfia todos para Bruxelas? Tantas voltas com o avião aqui à nossa frente. Este povo não sabe o que é ar condicionado. Num autocarro com um calor destes. Já estou a ficar todo suado. Estou a suar em bica. Então, não vai abrir as portas? Estamos aqui parados e este gajo não abre as portas. Isto é inacreditável. Nunca vi nada assim!
- Ai este calor!
- A miúda já está a chorare!
- Parece brincadera, estão a gozar connosque. Ai pá, estou farta de tar aqui. Fogo pá, a gente quer respirar. Vamos ficar aqui até as crianças desmaiarem todas.
- As crianças vão desmaiar!
- Se dissermos todos ao mesmo tempo para ele abrir as portas ele vai ter que abri-las.
- Já não se aguenta!
- Ouvrez les portes!
Eu e mais duas portuguesas obesas unimo-nos nos nossos Fosgasse e começamos a bater violentamente contra os vidros.
- VOU DESMAIAR!!
- NÃO SE AGUENTA!!
- EU FAÇO QUEIXA!! ESTAMOS A MORRER!!!
Há pessoas a sair. Não é possível. O cabrão do gajo só abriu a porta da frente.
- OUVREZ DERRIÈRE!!
- DERRIÈRE!!!
Pronto. Já se está a sair deste forno. Olho para o motorista insultuosamente. Imbecis pá, anda esta gente a ganhar dinheiro. Dentro do avião é a revolta.
- Se tivesse ali alguém levava com a minha fúria. Queixava-me logo.
- Com crianças e tudo. Isto é um crime contra os direitos da humanidade universal.
Um miúdo leva um estalo. Bem feito. Berrar com a gente preocupada. Agora não se cala. Mal educado. Se fosse meu filho havia de ser.
Mais calmos do escândalo, chegamos a Lisboa. Nuvens. Foda-se pá. Venho a Lisboa e tá pior que em Paris. Isto do clima já não é o que era. Alguém me diz que é da estufa. Tem que se acabar com a estufa que isto não pode ser. Andamos a votar naquela gente e é só crise. Já não se pode confiar em ninguém. Quero é chegar a casa e ver a bola, perdi o jogo. Não jogámos nada. Merda para a TAP.

11.6.06

F'estival Caixa 2006




Para festejar o dia de Portugal e de Camões, a Caixa Geral de Depositos e a Embaixada de Portugal fizeram uma aposta ambiciosa e trouxeram a Paris Clã, Da Weasel e Xutos & Pontapés, reunidos numa unica noite no Zénith de Paris. A comunidade portuguesa mobilizou-se e apareceu no Parc de La Villette para ouvir os grupos portugueses mais aclamados do momento.
A Festa de Portugal começou com Clã num Zénith ainda meio cheio.
Um publico que parecia pouco conhecedor de Manuela Azevedo e companhia cantou e saltou ao som de H2 Homem e Dançar na Corda Bamba entre outros sucessos do grupo português, que soube cativar a audiência. Manuela Azevedo é sem duvida uma fabulosa "performer", impressionando pelos saltos e passos de dança, pela sua voz invulgar e pela sua presença. O grupo soube também tirar partido de um muito bom jogo de luzes e de uma criteriosa escolha de musicas, alternando "hits" e musicas novas.



Seguiram-se os Da Weasel e o seu hip-hop com rasgos de reaggae. Claramente preferidos pelo publico mais jovem, Pacman e amigos souberam aquecer o ambiente na "festa da 'tuga" e puseram o publico a cantar um "Portugal!!Portugal!!" hà jogo de Selecçao.
O palco ficou enfim entregue aos miticos Xutos & Pontapés, com Tim envergando a camisola da Selecçao de todos nos. Um concerto algo morno, dominado por baladas interrompidas unicamente por uma frenética "Pra ti Maria". Mas Xutos sao sempre Xutos.



No final de contas uma grande festa, reunindo os maiores grupos de lingua portuguesa e proporcionando um cheirinho de Portugal à comunidade emigrante, que compareceu vestida a rigor, com bandeiras e camisolas de Portugal. É sempre de notar o patriotismo destes portugueses do estrangeiro: muitos nao falam sequer português. Os jornais e folhetos que nos foram distribuidos causariam arrepios a qualquer professora de português. No entanto, quando é preciso gritar por Portugal, nao ha garganta que aguente!!

Viva Portugal e Viva Camões!!

Guerras Presidenciais



O mundo politico francês agita-se ja ha alguns meses na antecipaçao das eleiçoes presidenciais de 2007 e os candidatos desfilam vindos de todas as familias politicas.
O PS jà conheceu dias melhores e encontra-se agora dividido por guerras fraticidas entre as suas principais figuras. Jacques Lang, Dominique Strauss-Kahn, Ségolène Royal e até François Hollande sao os "candidatos a candidato" dos socialistas, sendo que a Presidente da regiao de Poitou-Charentes é agora nitidamente favorita. À frente em todas as sondagens e bem amada da imprensa, Ségolène Royal parece agora querer atacar o terreno de Nicolas Sarkozy, tomando posiçao contra o seu proprio partido em questoes como a delinquência juvenil, a segurança e as 35 horas.
Do lado do UMP, as coisas parecem mais simples. Nicolas Sarkozy é cada vez mais o inevitavél candidato, tendo eliminado os seus concorrentes, nomeadamente o Primeiro-Ministro Dominique de Villepin, enfraquecido pela crise do CPE e pelo escândalo Clearstream.
Para além destas duas principais forças, esperam-se ainda os candidatos UDF (centro) e da extrema-esquerda(PCF e LCR), sendo que o eterno Jean-Marie Le Pen jà disse "presente", recusando ao mesmo tempo uma uniao com outro lider da extrema direita, Philippe de Villiers.
Nos proximos tempos toda a vida politica do pais gira em torno da eleiçao de março 2007. Aguardemos o desfecho.

31.5.06

"Fésta Popular"

Não quis deixar de partilhar esta joia da comunidade portuguesa em Paris convosco...
De passagem pelo banco ontem à tarde, dou com um pequeno panfleto em cima do balcao, que passo a transcrever (infelizmente nao tenho scanner e nao posso apresentar a versao original, ao vivo e a cores):

"Fésta Popular

Organização da Associaçao G.D. Minhotos

3-4 Junho 06, Stade Didot (Porte de Vanves, Paris 14)

- Sàbado 3: Pétanque, Sueca, Malhas, Futebol
Equipas participantes: Neves F.C. (proveniente de Portugal), G.D. Minhotos, Vasco da Gama, A.D. Meudon, Caravela F.C. e Lusonorte Valpacos.

- Domingo 4: Festa Musical/Futebol

Bar e Bons Petiscos - Entrada Livre

Com a participaçao du Banco BCP, Agência 13, rue Paul Barruel 75015 Paris. "

Conseguem imaginar programa melhor para este fim-de-semana?? Viva Portugal!!

30.5.06

Maria à Paris





Tudo começou numa quinta-feira à noite, com a Maria a chegar a Porte Maillot vinda de Beauvais, aeroporto fora de Paris onde aterra a Ryanair. Depois de dar duas voltas à praça là encontrei a estaçao de autocarros e a pobre da Maria, de mochila às costas. A partir dai começou o fim de semana.
E que bem começou, com uma caminhada de Porte Maillot até minha casa, passando pelo Arc du Triomphe, Champs-Élysées, Concorde, Pont des Arts...Duas horas a pé, com chuva à mistura, passando pelos locais mais emblematicos de Paris.
Depois disso eu tive infelizmente de entregar-me ao estudo (os exames estavam à porta) e deixar a Maria descobrir Paris sozinha.
É de assinalar no entanto pique-nique nas "marches" do Sacré-Coeur, ja depois da chegada do Henrique, seguido de festa na Cité Universitaire, tipo arraial, e também um jantar em minha casa com o Sr. Doutor Francisco Valente.
Um fim de semana bem passado e uma bela visita Maria Eça, que eu devolvo dia 27!

Roma me aguarde!

26.5.06

La Pagode

Uma das mais belas salas de cinema do mundo está certamente no cinema La Pagode em Paris. Situado no 7ème arrondissement, uma das zonas mais calmas da cidade, esta sala esteve há pouco tempo em risco de fechar devido aos planos do seu proprietário. No entanto, o Ministério da Cultura decidiu intervir, e elevou o cinema a monumento nacional para impedir qualquer modificação ao seu aspecto ou à sua estrutura.
Tive a oportunidade de poder aí ver um filme muito recentemente e poder admirar toda a sua beleza. Depois dos anúncios e publicidade, as luzes abrem mais uma vez antes de se dar início ao filme propriamente dito. Segundo uma cinéfila muito bem informada, é uma tradição francesa, mas eu suspeito que seja para o público presente poder admirar uma última vez a sala japonesa antes de se poder concentrar na obra que vai visualizar.
Assim, parisienses, estrangeiros, cinéfilos ou não, aconselho vivamente qualquer ser vivo a experimentar ver um filme na primeira sala da Pagode. É um cenário de uma riqueza excepcional para os olhos, que nos espanta antes de entrarmos no sonho da cinefilia, no nosso encontro com os nossos deuses e fantasmas, não necessariamente orientais, mas divinos na sua tradição.

13.5.06

Exame

Sexta-feira dia 12, exame antecipado de uma cadeira opcional, a tal de que ja vos falei, onde as aulas começam com musica, continuam com pintura e acabam com banda desenhada.
O exame vai ter lugar no anfiteatro Fraisse, o maior de todos, para 600 alunos.Nos somos apenas uma duzia. Quando entramos ja as folhas e enunciados estavam em lugares estratégicamente escolhidos. E ao lado de cada folha, um chocolate.Um chocolate, um pequeno chocolate Côte d'Or, qual recompensa para meninos bem comportados.
Pequeno discurso sobre o enunciado: duas perguntas, podem responder apenas à primeira, apenas à segunda ou às duas. "Soit dessert, soit fromage, soit fromage et dessert!!". À la carte.
"1 - Quels sont, de votre point de vue (Étudiants Erasmus notamment), les aspects spécifiquement français des médicaments?"
2 - Réfléchir, cela commence par dire "non"! Développez les (ou une partie des) différents points sur lesquels vous n'avez pas le même avis."
Começa o exame, supostamente com um limite de duas horas, mas no fundo ilimitado em tempo e possibilidades. Começam também os vai e vêns do professor entre as filas, entre os alunos: "ça va? qu'est ce que je peux faire pour vous? si vous manquez d'inspiration vous pouvez commencer par dire que vous n'êtes pas d'accord avec le sujet de cet examen..."
E assim se passou um exame, em ambiente convivial, descontraido e nem por isso facil. Se todos pudessem ser assim...

4.5.06

Vive le printemps!!

Acabaram finalmente os tempos do frio e da chuva, o longo inverno parisiense abdicou e deu lugar à primavera. E com a primavera os parisienses sairam para a rua: todas as noites tem encontro marcado com as esplanadas da rue Mouffetard e da Place de la Contrescarpe, as "terrasses" enchem-se, os bares e restaurantes abrem as janelas e portas e viram-se para a rua, onde ja nao ha espaço para andar. A fila dos "Gelati d'Alberto" ja têm varios metros e parece crescer de dia para dia.Os sobretudos, cachecois e gorros dão lugar às saias,decotes e oculos de sol, a pele ainda branca (e às vezes escaldada!) mostra-se cada vez mais. Bons tempos se avizinham, na rua, nas "terasses", em Paris.
Abaixo o Inverno, longa vida à Primavera!!

29.4.06

Viagens na "minha" Terra

Vamos finalmente virar a pagina sobre este episodio do CPE e passar a assuntos mais triviais. Decidi fazer um curto relato das minhas ultimas viagens em terras francesas.
Em primeiro lugar a visita ao Château de Fontainebleau: num belo dia de sol parti com a Francesca da Gare de Lyon até Fontainebleau-Avon para uma visita das antigas residências de François Ier e Napoleao entre outros. Em relaçao ao castelo deixo as fotografias falar, valeu sem duvida a pena dar la um saltinho.



Segunda viagem, ida a Toulouse para visitar os companheiros emigras Luis e Buscardini, com direito a visita do resto da tropa (Alex, Mahado, Marco e Vivi). Dois curtos dias de festa, musica, saidas, politica, Berlusconi, Shangai....Memoravel. Mais uma vez conseguimos superar as expectativas.




Uma semana mais tarde, de volta ao Sud-Ouest gaulês com estagio de remo marcado para o complexo desportivo de Le Temple sur Lot. Oito horas de autocarro mais tarde, uma paisagem de sonho, campo e natureza com fartura e condiçoes ideais para a pratica do jogo do remo. O corte total com a Paris cinzenta e poluida dos ultimos tempos. 220 km em 6 dias, muitas dores musculares e o primeiro bronze da época balnear 2006!!Uma grande estreia, coroada com festa organizada pelo Athletic Club de Boulogne Billancourt!

8.4.06

E ainda o CPE...

E com grande agrado que vejo a chegada do Duarte. Este blog esta cada dia mais rico e mais vivo.
Passando ao assunto principal, hesitei bastante em responder a este texto do Francisco, por nao querer tornar este blog num fente-a-frente ou numa discussao entre dois. Mas ao mesmo tempo nao me desagrada a ideia de fazer desta pagina virtual um lugar de debate. Como tal, peço a vossa contribuiçao, caros leitores: que os nossos textos inspirem as vossas opinioes e comentarios.
Respondo também porque me parece que ouve uma certa incompreensao do meu ultimo texto. Nao conseguirei responder a tudo, porque as questoes sao muitas e diversas. Vou tentar cingir-me ao que acho mais importante.

Quando falo de vanguarda, nao me refiro à situaçao economica ou social da França, que, como o Francisco, considero pouco atraente. Falo sim da contestaçao e do movimento social e popular que se gerou e que considero como à frente do seu tempo. Falo de um despertar dos franceses para a sua situaçao e para a daqueles que os rodeiam. E se hà coisa a que a França e o seu povo nos habituaram foram a estes sinais de revolta. O intelectual hungaro Gàbor Kardos refere-se no Courrier International de esta semana a este fenomeno como a “Bastilha da globalizaçao”, imagem que considero bastante sugestiva.
Também nao duvido da crise existencial francesa, porque so uma grande crise poderia provocar manifestaçoes desta amplitude. Crise essa que resulta, em parte, de um problema de representatividade de que ja falei no ultimo texto ligado a um regime confuso e contraditorio de que falou o Duarte.
A média de vida de um Primeiro Ministro francês no Governo é de cerca de 2 anos, como se pode querer governar em 2 anos?! Todo o desenrolar deste processo demonstrou as incoerências e paradoxos deste regime e Villepin pode efectivamente ser criticado, mesmo pela esquerda. Ao faltar com a sua palavra e ao ir contra a lei de 2004 sobre o dialogo social, expô-se a todas as criticas. Nao têm agora qualquer legitimidade e por isso se vê atacado por todas as partes, inclusive pelo seu proprio partido. Mas tudo isto apenas foi possivél porque a V Républica o permite. Estamos perante um sistema em que existe um défice democratico, resultante do facto que o grupo que governa nao coincide com o grupo que sofre as consequências dessa governaçao. Talvez seja a Constituiçao que necessite de ser reformada...
Ao contrario do que dizes Francisco, nem todos os sistemas eleitorais funcionam como em França e parecem-me haver alternativas a este problema, digo eu, mas peço a opiniao de pessoas mais competentes no assunto (Duarte Graça?). E no que diz respeito aos dirigentes, também ha outras possibilidades. Cito apenas o exemplo da Dinamarca, onde a maior parte dos lideres politicos veem de uma carreira de sindicalistas.
Depois, convém procurar origens e respostas a esta crise. Nao basta afirmar que existe crise e que portanto é necessario reformar. E preciso também discutir o conceito de “reforma” e a resistência que oferecem os franceses a essa reforma: imagino que ninguém mais do que os proprios franceses,que sofrem esta crise no dia a dia, quer ver a situaçao do pais evoluir e melhorar. Mas uma reforma nao pode ser unilateral e nao pode ser instrumentalizada por aqueles que a promovem, nao deve estar ao serviço de uma classe social. A verdadeira reforma deve ser um concerto entre todos os actores sociais e a reflexao democratica, mesmo extra-parlamentar. Estamos face a uma contestaçao das reformas mas nao da Reforma, aquela que permitiria uma evoluçao dos principios fundamentais da sociedade e da Republica francesa. Se pelo menos as empresas francesas estivessem pelas ruas da amargura, seriam talvez aceitaveis reformas deste tipo, mas a verdade é que todas as empresas do CAC 40 registraram lucros recorde em 2005, o que acentua a clivagem entre classes sociais.
Passando ao dito cujo CPE: a percentagem de jovens no desemprego entre os 19 e os 26 anos é de 22,5% e nao de 30%. Analisemos com mais cuidado estes numeros. A faxa etaria dos 19-26 anos leva cerca de 3 meses para encontrar um emprego enquanto a faixa dos 45-55 anos leva mais do dobro do tempo para se livrar do mesmo desemprego. Ou seja, estes jovens nao parecem ter dificuldade em arranjar emprego. No entanto a sua taxa de desemprego é mais elevada do que a média nacional. Porque sera? Porque o emprego a que acedem é precario e temporario, o que faz com que voltem rapidamente ao desemprego. Se adicionarmos a isto a chegada constante de jovens ao mercado de trabalho, percebemos o numero elevado de desempregados. O CPE é sem duvida a soluçao mais criteriosa para esta problema...
Duvido enfim desse fatalismo e dessa falta de escolha que nos propoe.
Basta virarmos um bocadinho os olhos para o Norte da Europa e para as sociais-democracias da Escandinavia. Um modelo economico marcado por elevadas cargas fiscais e regimes de protecçao social muito avançados. Como é que isto é possivél neste mundo em que "reformas antecipadas, máquinas gigantescas de segurança social estão a falir com o Estado"??
Simplesmente porque esta protecçao social constitui um factor de competitividade nos regimes nordicos, uma vantagem e nao um encargo. Ha alternativas e ha outros modelos economicos viaveis.
E engraçado como se tronou "inevitavél" caminhar para este mundo liberalizado, ou como lhe chamam de forma eufemistica "aberto". Como se a situaçao actual tivesse aparecido, por divina vontade, como se nos tivesse sido imposta e que nao houvesse outra escolha. Mas convém sempre lembrar que a situçao que temos foi criada pelos dirigentes dos Estados modernos e pelas suas politicas, nao nasceu por geraçao espontanea. E é esta situaçao que temos de aceitar, porque nao ha outra escolha, porque "é assim".
A abertura de que falam é a abertura que falta. Mas abertura das mentes para combater o conformismo de dirigentes e politicos, muitas vezes de populaçoes também.
Este texto ja vai longo demais sem duvida. Acabo por nao responder a tudo, mas fica mais uma vez o meu ponto de vista.

“Comme le disait ma grand-mère il existe seulement deux familles dans le monde: ceux qui possèdent et ceux qui ne possèdent pas.”

Sancho Pança, Don Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes

Contributos para a discussão

Escrevo depois de ler os ultimos posts do Duarte e do Francisco.
Não entrarei tanto na discussão de eficácia do CPE mas sobre a "poeira debaixo do tapete" que esta questão parece revelar.
Comecemos pela questão da legitimidade e da representatividade levantada pelo Duarte.
De facto, Villepin nunca ganhou uma eleição, nunca foi eleito deputado, maire... nada! E chegou a primeiro-ministro. É no mínimo estranho, Francisco! Sabemos que foi escolhido pela influência que tem junto da família Chirac (Bernardette deve-lhe uns favores a propósito de um terreno no Porte Autonome de Paris) conquistada nos anos em que foi secretário-geral do Eliseu. Eu ponho o problema desta maneira: a Va República é um sistema constitucional complicadíssimo, absurdo diria mesmo. Julgo que nunca houve um governo que tivesse durado uma legislatura. Mas é o sistema vigente em França e que ninguém parece contestar. Ora, se aceitamos a V República, aceitamos também o governo que através desse sistema vier a ser formado. E se Villepin se tornou primeiro-ministro foi para governar e - bem ou mal neste ponto não interessa - está a governar. É inaceitável que a esquerda venha, quando os acontecimentos se viram contra ela, por em causa a legitimidade de Villepin.
Depois levanta-se a questão de bloqueio das universidades. Na minha opinião é também inaceitável e anti-democrático. É anti-democrático quer material quer formalmente. Não me parece lícito impedir alguém de trabalhar ( ir às aulas é o trabalho de um estudante). Se um professor quiser fazer greve e não dar uma aula, aí sim!, está no seu direito; se um estudante quiser faltar a aulas e ir manifestar-se também está no seu direito ( e não deve ser prejudicado por isso, nomeadamente em termos de número de faltas); mas negar a todos os outros alunos o direito-a-não-se-manifestar-desta-vez é claramente condenável. E o argumento de que o Governo e o Parlamento não são um retrato sociologico da França (remeto para o que escrevi acima) não colhe. Se somos democratas, somos democratas sempre e garantimos o direito a concordar ou discodar, a manifestar ou não manifestar sempre! E a Universidade, como espaço de todos os estudantes e todos os professores não pode ser uma arma de arremesso politico ainda que - e isso indiscutivelmente! - o bloqueio tenha uma força política brutal.
Quanto à questão de forma: eu estive na Assembleia Geral de Alunos de Nanterre que decretou o bloqueio da Universidade. Qualquer semelhança com um circo romano é pura coincidência (um ligeiro sorriso aparece-me agora no canto da boca...). Um anfiteatro "à pinha", de certeza, 1500/1800 pessoas, a votar de braço no ar, com uma tribuna claramente pró-bloqueio, sem controlar se os braços que se levantam são de estudantes de Nanterre ou não, deixa levantar todas as suspeitas sobre a legitimidade democrática da decisão. Mas, sejamos claros, isso não é uma preocupação de quem estava naquela tribuna nem de quem atrás deles se escondia.
Mudando de questão, falemos do modelo social francês. O Nouvel Observateur da semana passada trazia dados muito interessantes: em 30 anos a população aumentou, envelheceu também, os jovens têm mais formação mas também mais desemprego, vivem mais tempo em casa dos pais e casam-se menos. Até aqui nada de novo. Até que... pela primeira vez na história de França as reformas são mais elevadas do que os salários de quem paga essas reformas. É insustentável...
Eu não sou um liberal (como o Francisco?). Mas não ver que esse caminho, com a população a continuar a envelhecer, continuará a condenar a França -e a Europa em geral porque o modelo acaba por ser mais ou menos o mesmo - é continuar a asfixiar a população activa até ao ponto em que for garantido que não respira mesmo. E depois? O Estado abre falência?
Uma última nota a propósito da "solidariedade na banlieu". Francisco, as manifestações estão cheias de casseurs que não são estudantes nem sindicalistas. É gente da banlieu que em Novembro não descarregou a raiva toda e que continua à espera de motivos para gritar - como o faz - "Sarko, nique ta mére!". Pode dizer-se que não é gente politizada, que não está nas manifestações por causa do CPE mas para continuar com acertos de contas, mas a verdade é que está presente. E é perigosa.
A discussão segue dentro de momentos.
Um abraço.

Junto-me à festa!

A 7 de setembro cheguei a Paris.
A 10 fiquei com as malas no meio da rua e conheci o Duarte na paragem do 21 Bertholet-Vaucquelin.
O João Maria e o Fre chegaram a 11.
Dias depois conheci o Francisco num animado serão de Paris.
A 24 mudei-me para a Rue Notre Dame de Bonne Nouvelle.
Depois, esta aventura entrou em velocidade cruzeiro: o italiano como constante do meu dia-a-dia (tributo merecido ao Luca, à Vale e à Francesca), a banheira famosa, o gelo nessa banheira, a Universidade, as festas, os museus, o Luis e o Frederico, as médicas, a Cláudia, aprender francês...
Há uns tempos, o Duarte convidou-me para o blog. Por uma série de dificuldades logísticas ainda não tinha participado.
Tentarei participar nas discussões e partilhar a minha experiência. Paris-paisagem-interior e Paris-espaço-físico.
Um agradecimento especial ao Duarte pela amizade antes de sermos amigos, pelos jantares, pelas discussões ( quantas vezes "sans issue"!), por este convite, por estes tempos que farão sempre parte daquilo que viermos a ser. Seja o que for que viermos a ser.

3.4.06

Ainda o CPE

Caro Duarte,
Antes de mais, obrigado pela resposta - acho o assunto interessantíssimo, e envolve cada um de nós, dentro das suas maneiras diferentes. Como seria de esperar, isto para quem leu os dois textos, discordo bastante de algumas coisas que escreveste. Espero conseguir demonstrar cada ponto de maneira eficiente.
Ao contrário do que tu achas, não se trata apenas da imprensa anglo-saxónica a achar que algo se passa com a França. Pelo pouco tempo que levo da minha estadia em Paris, começo a perceber que o sentimento nacional se está a aporar de algumas dúvidas, há quem ache mesmo, dentro dos círculos jornalísticos franceses, que o país está numa espécie de crise existencial. Não há um dia em que não abra um jornal e não surjam entrevistas em série a aprofundar cada vez mais essa questão.
Tirando opiniões de carácter ideológico (capitalismos, etc), às quais já lá vamos, há uma coisa em que discordo absolutamente contigo - trata-se do papel que a França está a tomar, e porventura sempre tomou, dentro da União Europeia. E trata-se de algo que se pode definir por muita coisa, excepto "vanguarda".
A França é um país obviamente essencial à Europa, isso é um facto absolutamente inevitável. Mas a sua visão do continente está perfeitamente desenquadrada com o que o resto dos países europeus, excepto os satélites belgas e luxemburgueses, vêem na defesa dos seus interesses. E aqui não são interesses capitalistas - são interesses vitais para a condução positiva das políticas da Europa. Um mercado único aberto, e não fechado (o que não faz sentido), não só em relação aos novos mercados europeus e os novos membros de Leste, como as outras potências, velhas e novas - EUA, Brasil, Índia e China. Se a Europa se fechar, como a França defende, continuar em caminhos separados e a uma velocidade unicamente comandada por um país, vamos todos sofrer com isso. Iremos perder competitividade, e neste momento, sem economia, nem sonho para onde é que a Europa se poderia virar.
Por que sejamos realistas - a França sempre tomou a Europa como uma luta de poder, o que em si é normal, mas foi sempre feroz, e tentou sempre virar o rumo das coisas para o seu lado e a seu proveito, algo com o qual ainda pagamos em certas coisas. Falo, por exemplo, de um programa como a PAC, que absorve cerca de 45% do orçamento comunitário, de querer tornar a Europa num clube exclusivamente dominado pelo chamado "eixo franco-alemão" (curiosamente, esses dois países encontram-se abraçados a situações socio-económicas algo complicadas), contra uma Grã-Bretanha invasora, e mesmo novos países membros mais virados "para fora" do que "cá dentro" (leia-se EUA). E por que razão? Exactamente por que essas mesmas novas democracias estiveram anos sob um regime socialista totalitário que lhes roubou qualquer prosperidade - o que querem agora, e com toda a razão, é progresso, paz, bem-estar, e sobretudo abertura.
E quando dizia que a França, em termos europeus, se encontra numa esquerda ferozmente proteccionista, é por essa mesma razão, por que quer proteger a "sua" Europa. Mas essa Europa já não existe. Já não são 6 ou 12 países, já não é uma Europa a precisar de proteccionismo económico e social devido à sua situação dramática de pós-guerra, já não é uma Europa que tem a obrigação de dar emprego garantido para a vida a toda a gente, por uma simples razão de sobrevivência das suas famílias. Quando falas de "direitos adquiridos ao longo de anos de lutas sociais" é isso mesmo - reformas antecipadas, máquinas gigantescas de segurança social que estão a falir com o Estado, populações inteiras a trabalharem dentro do funcionalismo público, sem maiores perspectivas de futuro (por que simplesmente não era possível). Mas esses tempos já acabaram. Qualquer analista económico isento poderá garantir-te o seguinte : continua-se por este caminho desadaptado à realidade dos nossos tempos, e o Estado vai à falência. Este não pode continuar a pagar tudo e a funcionar como garante de bem-estar para todos durante muito mais tempo - é insustentável. Por isso está na hora da reforma, que até a França já entendeu e está a querer tomar, por muito que desagrade aos manifestantes.
E na meritocracia, existe como dizes igualdade de oportunidades - mas não podem existir privilégios. Faz algum sentido hoje em dia uma pessoa sair da universidade, e saber que se entrar na administração pública, tem um emprego garantido até aos 65, mais cedo até se cumprir X anos de serviço, e fica a receber o seu último salário à custa de todos os outros empregadores? Tudo isto torna uma situação insustentável para qualquer sociedade, por muito solidários que queiramos ser, nenhuma máquina ou programa aguenta isto, nem que se matem todos a trabalhar.
Assim, o que se propõe no caso do CPE, é uma abertura do mercado aos mais jovens, e que estão agora a começar a trabalhar, a poder entrar de imediato numa série de empresas (que em França, não os exploram por que simplesmente não os querem contratar), a um regime experimental de (agora) um ano. Se o novo empregado tiver mérito, o que a menos que seja incompetente, desajeitado, ou não tenha feito uma boa formação, não terá, entrará depois num regime profissional mais sólido, ao mesmo tempo com maior experiência. E se alguém à frente dele consegue o emprego por que tem melhor currículo, não achas que isso seja natural? Cada um trabalha segundo as suas ambições, e cada empregador quer o melhor para a sua empresa - trata-se de abrir todo um mercado a uma camada da sociedade cujo desemprego está perto dos 30%, trazer as empresas e os empregadores mais próximos dos jovens formados, e tentar acabar com a tentação destes de irem todos parar aos postos públicos do Estado (que 75% dos jovens afirmam ambicionar - e isto é um sintoma de falta de perspectivas e de ambição profissional). No fundo, é algo que pode vir a ser importante para dinamizar o mercado, recheá-lo de novas (e jovens) pessoas e abrir várias perspectivas.
Em relação à tua crítica ao sistema de representatividade democrática, o que sugeres? Já nos seguimos por este sistema desde que se acabaram com os regimes totalitários na Europa Ocidental (até Gorbachov percebeu que aquilo não funcionava nos lados dele), e Churchill já dizia que "a democracia é o pior dos regimes, com excepção de todos os outros". Se não achas que o partido mais votado numas eleições deva ter maioria, pela junção das percentagens, numa assembleia parlamentar, sugeres deixar um espaço de lugares vazios representativos dos 40% de abstencionistas no parlamento para guiar os destinos do país? O Primeiro-Ministro francês talvez nunca tenha ganho uma eleição, mas o Presidente que o apontou viu esse seu direito delegado por 82% dos votantes nas eleições presidenciais. Trata-se de um sistema - no caso francês é um semi-presidencialismo forte, noutros países democráticos tens outros, mas no fundo não diferem assim tanto. E em relação à classe das escolas do Estado de administração e de ciência política às quais apontas o dedo, de onde sai a classe política francesa, preferias que esta seguisse outra formação para comandar o país? Como podes afirmar que não têm contacto com a realidade social francesa? Querias que viessem directamente de camadas operárias? O povo não são só "os trabalhadores", e a minoria que governa é soberana na sua governação por que o seu poder vem da maioria.
Para além disso, não é porque 2 milhões e picos de manifestantes em França contra uma emenda legislativa saíram à rua que isso signifique que a maioria do povo francês esteja contra Villepin ou o CPE. Muito provavelmente, está sim totalmente insatisfeita não pela lei, mas pelo modo como este conduziu todo o processo.
Por fim, queria ainda dizer que acho que colocar a questão em termos de capitalismo ou não-capitalismo (socialismo?) é algo redutor. Por que hoje em dia, já ninguém fala de "capitalismo". Do que se fala, é da abertura de mercados que se encontram fechados, de abrir oportunidades a empresas e empregados (também poderás um dia, espero eu, circular livremente). Por que a abertura e o chamado "demónio" da globalização não é uma ameaça - é, mais do que uma oportunidade, algo de inevitável e que já está a acontecer. E o que se passa é que a França está a tentar rejeitá-la por não ser, mais uma vez, "sua", e está a sofrer gravemente com isso (e poder-se-ia começar um debate sobre as banlieues a partir disto). E ao contrário do que tu achas, não penso que as greves operárias, estudantis, ou metalúrgicas sejam apenas uma "ante-estreia" da luta ideológica (por que sejamos francos - conheces algum metalúrgico de centro-direita?), o que prevejo que aconteça, mais tarde ou mais cedo, é a sociedade francesa render-se aos factos, à realidade que a rodeia (começando pela Europa, acabando noutras paragens), e até às estatísticas. Podes achar que a França está na vanguarda do seu modelo social, mas achas que os "novos franceses" dos arredores de Paris pensam o mesmo que tu? Duvido que se sintam como cidadãos de uma sociedade na vanguarda - aberta social e economicamente, multicultural, e com igualdade de oportunidades. Aposto que a esmagadora maioria deles desespera por algo como o CPE. E para sustentar essa minha ideia, basta ver que ainda não surgiu qualquer incidente de "solidariedade" nas banlieues, como a generalidade da imprensa francesa previa.
Num mundo aberto, todos têm cada vez mais acesso e direito à prosperidade e ao bem-estar. E por que nem sempre isso acontece, nunca como hoje em dia se discutiu tanto a questão e o melhor modo de fazer isso para o proveito de toda a gente, com justiça.
Resta-me dizer que nunca escrevi tanto sobre economia, e quanto aos disparates, espero as devidas correcções.

1.4.06

Nao posso deixar de reagir a esta analise do Francisco,e vou assim - também eu - dar a minha visao dos acontecimentos dos ultimos meses.
Em primeiro lugar, eu nao afirmaria com tanta certeza que os 2 milhoes de manifestantes, ou até, se quisermos generalizar estes acontecimentos a uma crise social e politica nacional, os 60 milhoes de franceses, estao enganados. Quanto mais nao seja por prudência ou humildade.
Em segundo lugar, nao se trata "apenas" de uma emenda legislativa. Trata-se a meu ver de uma reacçao à politica dos governos franceses dos ultimos anos, reacçao essa que ja apareceu aquando do "Nao" ao referendo constitucional, das manifestaçoes contra a loi Fillon, nas revoltas na banlieue e agora na contestataçao anti-CPE. Politica essa que segue a tendência global para a liberalizaçao e precarizaçao do emprego. Nesse aspecto, penso, ao contrario da imprensa (nomeadamente anlgo-saxa), que a França nao é um pais atrasado ou reaccionario face ao panorama europeu, mas sim um pais na vanguarda. Vanguarda da contestaçao ao novo capitalismo, que ja começou com as greves em Inglaterra do sector publico, dos médicos e do sector metalurgico na Alemanha... e que vai tender a generalizar-se.Estamos apenas a assistir a uma ante-estreia.
Parece-me hipocrita apresentar o CPE como a unica e inevitavel soluçao para o problema do desemprego dos jovens (que na realidade pode até ser causado pela tal precaridade que o CPE visa institucionalizar) quando se pode atacar a exploraçao dos estagiarios, o problema do sub-emprego nas empresas, da falta de formaçao...
E porquê chamar privilégios aquilo que sao direitos, adquiridos ao longo de anos de lutas sociais? Os verdadeiros privilegiados encontram-se noutros sitios...
Nao me parece que se ponha em causa uma meritocracia, eu pelo menos nao ponho. Simplesmente essa meritocracia nao existe sem igualdade de oportunidades, é tao simples quanto isso. So se podem avaliar individuos em igualdade de circunstâncias(nao ha mérito nenhum em ganhar uma corrida a um coxo!!). E sabemos bem que essa igualdade à partida nao existe hoje.
Parece-me também que muita gente esta chocada com a dimensao da contestaçao e dos protestos. No entanto nao se interrogam sobre o "porquê" da dimensao de tais protestos, tomando por pressuposto que as pessoas que manifestam o fazem de forma gratuita e que nao lhes custa perder dias de salario. Nao pensam que talvez estas manifestaçoes apareçam como a unica forma de ser ouvido, devido a uma falta de representaçao pelos seus politicos que sentem os franceses. Eu nao hesitaria em manifestar se soubesse que o partido no governo têm 65% das vozes no Parlamento tendo obtido apenas 35% das vozes a nivel nacional, sem duvida devido a um sistema eleitoral deficiente. Se soubesse que o meu Primeiro Ministro nunca ganhou uma eleiçao. Que os deputados sao dinossauros politicos assim como o Presidente que faz agora 43 anos de politica. Dinossauros saidos directamente das escolas de admninistraçao do estado (Sciences Po e depois ENA), sem contacto com a realidade social francesa. Se soubesse que os partidos de oposiçao foram privados de debate na assembleia e que os sindicatos nao foram consultados para a adopçao da loi sur l'égalité des chances. Tudo isto contribui para que um pequena minoria governe sem o povo, o que para mim, nao representa nenhum ideal de democracia.
Nao se trata de incompreensao, mas sim de compreensao. Compreensao do que implicam estas reformas e das suas consequências para os trabalhadores, das suas vantagens para o patronato. Compreensao da visao unica que nos tentam incutir do mundo e da sociedade. Visao essa que aponta o capitalismo como unica saida viavél, unica opçao "realista". E quando se rejeita tal conformismo passa-se a ser intitulado de romântico, utopico, irrealista e irresponsavel. Esse realismo que hoje em dia nao é mais do que fatalismo, que nos obriga a acreditar que a realidade nao pode ser transformada, apenas repetida.

"A realidade é um desafio.
Não estamos condenados a escolher entre o mesmo e a mesma coisa.
A realidade é real porque nos convida a transformá-la e não porque nos obrigue a aceitá-la. Ela abre espaços de liberdade e não nos encerra necessariamente nas cadeias da fatalidade."

Eduardo Galeano
Alguém sabe o que é o CPE?
Depois de tantas manifestações, de ter visto bloqueios de universidades, slogans, paradas, e até concertos de rua, parece-me que, para um jovem europeu estrangeiro (mas europeu), toda a gente está a passar ao lado do verdadeiro problema em França. Posso estar errado, mas essa é a minha impressão.
Não deixa de ser curioso como se gerou, naquele país, uma crise social e política desta dimensão à volta de uma simples emenda legislativa, quanto mais uma revisão geral do código de trabalho. Mas muita coisa se pode dizer sobre isto tudo, começando na rejeição da Constituição Europeia pelo povo francês, passando pelo período de violência nas banlieues, até a este preciso momento.
O que me parece estar a acontecer em França neste momento é uma mistura de frustração com incompreensão da nova realidade do país dentro do seu renovado contexto europeu e até mundial, tanto politicamente como economicamente. A França perdeu influência, perdeu até poder, e mesmo depois de De Gaulle e no ano de 2006, vê mais os outros grandes países ocidentais como uma ameaça do que uma oportunidade.
Isto é claramente um sintoma de um país desajustado do panorama político actual. Um país que tem medo do que a Europa tem para oferecer (porque não é a sua Europa, e não se pode ser o centro de 25 países), que não sabe como agir dentro do seu multiculturalismo não assumido, e que quer a tudo o custo manter vivo o sonho da sua República de valores universais, sem perceber que isso se pode tornar no seu maior perigo.
Não digo que os valores da França ou o seu papel histórico estão em causa - mas querer manter o seu "modelo social" numa Europa em que me parece que ninguém está interessado nele pode vir a ser dramático, tanto para o próprio país como para o continente. O que os jovens franceses estão a pedir nas ruas desde que a crise começou são os privilégios que os seus pais tiveram quando começaram a sua vida, e que curiosamente são de certa maneira aqueles contra os quais lutaram no Maio de 68.
O CPE muito provavelmente não vai resolver o problema do desemprego em França, não porque será totalmente ineficaz, mas sim porque não pode estar sozinho se alguma vez se quiser mesmo resolver a questão. Tal como disse, é apenas uma emenda. Mas o que de bom pode trazer, e contra isso é que estão todos a berrar na rua, é uma palavra que vem colada às reformas económicas que virão mais tarde ou mais cedo (até em França) em todas as economias da Europa, sob pena de ruírem - a meritocracia. E se hoje em dia estamos em crise, não é porque se fazem propostas como o CPE - é porque andámos a pagar durante anos demais um modelo vindo do pós-guerra baseado em pressupostos e privilégios que hoje em dia já não fazem sentido, como a impossibilidade de se despedirem funcionários públicos, entre outras coisas.
Por isso, ou a França, que curiosamente em termos europeus se coloca ideologicamente numa esquerda ferozmente proteccionista, adapta-se de facto à realidade dos tempos, tal como outros países europeus (incluindo o nosso), ou os verdadeiros protestos e a verdadeira crise virão mais tarde. Porque nem o Estado tem dinheiro para pagar todas as pré-reformas que se concedem, nem os futuros funcionários vão querer trabalhar até aos 75 anos para aguentar tudo o que se permitiu. La précarité não é o CPE que a vai criar, ela já existe e é bem real.
E como nota final, façam uma sondagem junto dos alunos universitários para saber quantos deles é que querem aulas, e quantos querem as portas fechadas. Não deixa de ser algo chocante saber que foram 300 alunos a fechar uma instituição de milhares. E se as forças de intervenção estão lá agora a cercar o edifício e a garantir a sua segurança, não é porque a Sorbonne é dos étudiants, como gritam, é porque é do Estado. E é urgente recomeçar as aulas.
Com as futuras eleições presidenciais, pode-se vir a fechar um ciclo em França, depois de um par de anos no mínimo traumático. Pode ser que as pessoas acordem, e aqui não está nenhum apelo ideológico ao voto - espera-se que o acordar vá da esquerda à direita. Como português, penso no futuro da Europa, porque mesmo se a França pede o que nunca conseguirá, não deixa de ser um país central na construção europeia. Só espero que caminhe para a construção global, correcta e realista.

Le Président de la République, M. Jacques Chirac



Bandeira Bleu, Blanc, Rouge e Marseillaise. Jacques Chirac sobre fundo do jardim do Palais de l'Elysée. O Président volta a adoptar o look "lunettes".
O Presidente falou à naçao. Em comunicado oficial, Jacques Chirac afirmou, como Dominique de Villepin, que a lei votada têm de ser aplicada. Que està à escuta dos jovens e dos manifestantes. Que é preciso dialogar. Que a Républica e os principios republicanos têm de ser respeitados.
Jacques Chirac promulgou a "loi sur l'égalité des chances", depois da intervençao do Conselho Constitucional. No entanto, pediu ao governo duas alteraçoes: a reduçao do periodo de experiência de 2 para 1 ano e o direito do empregado de saber o motivo do seu despedimento.
Jacques Chirac disse o mesmo que Dominique de Villepin. Jacques Chirac, quanto a mim, nao disse grande coisa (reservo o meu julgamento, pois no meio de tanto palavreado, nao tenho a certeza de ter compreendido a essência da declaraçao). No entanto trouxe mudança, novidade à questao do CPE. Resta saber se nao estara a atirar mais achas para a fogueira...
Eu espero para ver as reacçoes e espero ansiosamente por nova declaraçao do Super-Menteur.

"Vive la République! Vive la France!"

28.3.06

La Vie en Rose

Alguns dias atrás.

Finalmente, o dia em que volto a Paris. Tudo me espera aí, os seus edifícios, os seus jardins, a sua beleza, o seu frio, a sua arte, o seu charme.

(Non, rien de...)
Senhores passageiros, welcome aborde, estamos a descer em direcção a Paris, apertem os vossos cintos, e permitam-me desejar, do vosso comandante, uma fantástica estadia nessa maravilhosa localidade, cidade do romance. Merci e aue revoirr.
(rien... non je ne regrette rien...)

Já percorro os corredores do aeroporto, já sinto os meus pés nesse solo diferente, sempre plano, já imagino o horizonte que nos acompanha por onde quer que andemos em Paris.

Ó Sophie, qual é que era a tua valise?

Entro no táxi, num parisien, com o seu típico motorista de óculos e costas direitas, fato e gravata, a conduzir calmamente, já nos arrondissements, dentro da luz da cidade, do seu movimento, das mercearias que se acotovelam com os transeuntes, dos cruzamentos que nos chamam para cada um dos lados...

Atão é no trente-cinq que fica o senhor, donc?

E depois deste novo dia de trabalho, rodeado das imagens dos nossos filmes, depois da leitura obrigatória do Pariscope, já a caminho do métro e das suas carruagens que parecem antigas e do requinte das suas portas, passando por baixo destas árvores nuas, em breve recheadas de folhas dançantes filhas da Primavera, prolonga-se o suspiro que deixamos nesta cidade, que encontramos sempre após voltar, em cada esquina, em cada placa.

Vai tira lá a fótó, tudo debaixo da Avenue des Portugais, bóra!

E à noite, no café, mais um serão de conversas que sonham, por chávenas que nos aquecem e que alimentam o desejo de ficar para sempre, pelos sítios que nos esperam, pelas histórias que encontramos...

Nélson, mete lá o Banfica e traz tremoço. Putain, já tamos a perdere?

Non, rien de rien...

26.3.06

24.3.06

Le CPE, c'est quoi?

Esta na altura de esclarecermos o que esta na origem de tanta celeuma e manifestaçao nesta França de Villepin e Chirac. Os protestos têm como vitima um novo contrato de trabalho: o Contrat Première Embauche (CPE). O dito CPE faz parte de um projecto lei intitulado "Loi sur l'égalité des chances" de que nao discutiremos aqui.

O CPE é uma categoria especial de contrato de duraçao indeterminada (Contrat Duration Indéterminée) destinado aos jovens com menos de 26 anos e às empresas do sector privado com mais de 20 assalariados. Compreende um periodo de experiência de 2 anos, durante os quais o empregador pode despedir o empregado sem qualquer tipo de justificaçao. Se isso acontecer, devera pagar um indemnizaçao no valor de 8% do salario bruto do empregado. Durante esses dois anos o empregador vê-se exonerado de cargas fiscais.

Que cada um faça o seu julgamento e se sinta livre de se manifestar.

16.3.06

L'Opéra

Ontem à noite programa de luxo: La Bayadère de Rudolph Noureev na Opéra Bastille. Chegamos meia-hora antes do começo do espectaculo, para apanharmos os bilhetes de ultima hora, a 10 euros. Ficamos num balcao no 6 andar la bem em cima, mas via-se perfeitamente.
Tenho pena de nao ter levado maquina fotografica porque a sala merece: uma arquitectura com qualquer coisa de futurista, fazendo lembrar os filmes do Star Wars, onde os balcoes estao suspensos por cima da plateia, como que flutuando no meio da sala. As vertigens foram muitas do nosso lugarzinho la em cima, dado o pé direito monumental da sala.
Tivemos direito a algumas das mais conhecidas cenas do ballet classico, com 30 tutus em palco rodopiando ao mesmo tempo, solos esgotantes, "décors" somptuosos e tudo e tudo e tudo...
Este programa de aristocrata saiu-nos por uns fabulosos 10 euros, preço de dois almoços no MacDonalds...Este sim é o privilégio de estar numa cidade como Paris, em que se pode ir à uma Opera, um teatro e um concerto pelo mesmo preço a que iriamos a um espectaculo na Gulbenkian. "Voila" a democratizaçao e promoçao da cultura.

"çà c'est Paris"

13.3.06

Un vendredi à la Sorbonne, fragments.

- 7h00 : Nous sommes encore une cinquantaine dans la Sorbonne, fatigués, attendant une relève. Beaucoup des étudiants ayant participé à la manifestation autour du bâtiment, dispersée jeudi soir par la police, attendent sur la place de la Sorbonne l'ouverture des portes pour participer à l'AG prévue à midi. Nous négocions avec le recteur M. Quénet.

- 10h30 : Après vote, nous acceptons sa proposition: enlever les barricades formées dans la Sorbonne en échange de sa couverture aux étudiants. Notre part du contrat remplie, nous discutons avec les personnels administratifs présents et recevons la visite de quelques-uns de nos professeurs.

- 12h00 : Toujours sans réponse du recteur, nous apprenons par téléphone que l'AG se tiendra finalement au Panthéon. Nous y envoyons une délégation.

- 12h30 : Le recteur réapparaît parmi les agents de sécurité, nous invitons le journaliste de M6 qui nous interviewait à lui demander directement sa décision quant à l'ouverture des portes. M.Quénet quitte les lieux sans un mot.

- 14h30: Nous apprenons que l'AG a voté le maintien de l'occupation et que de nouvelles manifestations ont lieu dans le Quartier Latin.

- 17h00 : Alors que nous organisons des groupes de travail pour le weekend (réfléxion sur une proposition alternative à la loi sur l'égalité des chances), les agents de sécurité, inquiets, nous informent qu'ils évaquent le bâtiment en raison d'une alerte à la bombe. Après une vérification de tous les sacs, nous décidons de ne pas quitter les lieux et nous rassemblons dans la cour d'honneur.

-17h20 : L'alerte a été démentie, mais nous voyons les agents de sécurité se déployer rapidement. Nous ne comprenons pas ce qui se passe. Quelques minutes plus tard, un flux continu d'étudiants se précipite vers la Cours d'Honneur. Nous sommes à présent plusieurs centaines.

- Une AG se met difficilement en place tandis qu'une barricade est construite spontanément nous séparant des agents de sécurité avec qui nous entretenions de bons rapports. L'un d'entre eux nous fait comprendre qu'ils ne peuvent plus assurer la sécurité du lieu qui se retrouve désormais sous la seule responsabilité de la police.

- Progressivement, une certaine organisation prend forme dans l'AG. Sont successivement votés: la souveraineté de l'AG, la résistance pacifique en cas d'intervention des forces d'ordre et l'occupation des lieux jusqu'au retrait du CPE et l'ouverture totale de la Sorbonne aux étudiants.

- La succession de rumeurs alarmistes sur la présence de "casseurs" et de "fascistes" dans la Sorbonne ainsi que sur l'arrivée imminente des forces d'ordre entraîne un débat chaotique sur les modalités d'occupation. Certains appellent à la création d'un service d'ordre qui se met en place dans la précipitation, sans concertation ni débat.

- Massivement entouré de journalistes, M.Mélenchon, sénateur socialiste, fait irruption dans l'amphitéâtre à la surprise générale, mettant fin aux discussions engagées: une foule hétérogène s'agglutine autour de la tribune que M.Mélenchon essaye d'investir. Certains le bousculent, d'autres le protègent, beaucoup appellent au calme et proposent de le laisser s'exprimer ou de voter sur cette éventualité. Finalement, le sénateur décide de partir et les risques de récupération du mouvement sont évoqués sans qu'un débat puisse être instauré. Cette auto-invitation a semé la discorde, créant un climat de tension et compromettant l'organisation de la suite de l'occupation.

- A partir de ce moment, il devient impossible de donner un récit cohérent car il n'y a plus un évènement qui rassemble la majorité mais une multitude de petits groupes qui circulent et s'occupent chacun à leur manière: jeux de cartes dans les couloirs, ouverture de distributeurs, discussions et piano dans l'amphitéâtre Richelieu, groupes de travail sur les textes dans les salles de TD, inscriptions à la craie sur les murs, promenades nocturnes dans la Sorbonne, tracts de l'UNI brûlés dans la Cour d'Honneur...ici un appel est lancé à monter dans la bibliothèque des étages supérieurs afin d'empêcher le jet de matériel par les fenêtres.

- Dans cette bibliothèque, tandis que certains jettent échelles, tables, extincteurs sur les forces de l'ordre postées en contrebas d'autres restent plongés dans leur lecture. Au milieu, des affrontements ont lieu entre ceux qui jettent des projectiles sur la police et ceux venus pour empêcher la dégradation de la bibliothèque et en particulier de ses livres. Ceux-ci seront ensuite protégés par les occupants.

- Pendant ce temps, quelques étudiants discutent du CPE dans l'apprtement du recteur en buvant ses bonnes bouteilles. Ils ne manqueront pas de lui laisser un mot de remerciement.

Quelques occupants de la Sorbonne, le 12 mars 2006

11.3.06

Fac en Grève II



O segundo dia de bloqueio (quarta-feira) gerou uma assembleia geral com assistência record, cerca de 600 pessoas. O voto foi desta vez feito com urnas, para evitar as criticas e ataques dos que nao consideravam o voto a mao levantada legitimo.
A maioria votou contra o bloqueio, que foi levantado no dia seguinte.
No entanto, a assembleia geral de quinta-feira - que visava encontrar outras soluçoes de mobilizaçao sem ser o bloqueio - revelou-se surpreendente. Em primeiro lugar os professores da faculdade, depois de reunidos em assembleia geral, votaram uma moçao de apoio aos estudantes grevistas, garantindo-lhes que nao vao ser marcados ausentes nem penalisados pelas aulas a que faltarem. Em seguida, o movimento provou ter-se organizado: expuseram-se as varias comissoes criadas na véspera e elegeram-se mandatarios para a comissao inter-faculdades que vai ter lugar este fim-de-semana. Surpreendentemente, os estudantes presentes começaram a prôpor o voto do bloqueio para a semana seguinte à tribuna, assunto que tinha sido deixado de fora da ordem do dia voluntariamente. Face a tanta contestaçao a tribuna decidiu proceder ao voto. A informaçao passou para o anfiteatro do lado, em aulas, que compareceu em peso para o voto. Depois da mudança de anfiteatro por falta de espaço, um numero record de mais de 700 pessoas votaram, com uma maioria a favor do bloqueio para toda a semana.
Tal reviravolta so podia deixar-me contente, pois prova que os esforços para mobilizar e consciencializar os estudantes de Paris 5 teve efeitos.
A mobilizaçao começa a atingir uma dimensao impressionante, historica. A Sorbonne foi ocupada por mais de 200 pessoas durante a noite de quinta para sexta, feito simbolico que nao acontecia desde Maio de 68.
Infelizmente, estes movimentos de massas também trazem desvarios. Sexta à noite passei numa suposta manifestaçao em frente à Sorbonne que nao era mais do que um ajuntamento de jovens bêbados, ganzados, gritando algumas palavras de ordem de vez em quando, bloqueando o boulevard Saint-Michel com barricadas e sobretudo causando disturbios...
A amalgama é grande, misturam-se insatisfeitos e agitadores, injustiçados e extremistas.
Nem tudo sao rosas e nem sempre é facil posicionarmo-nos. O medo é muito. Medo de errar, de ir longe de mais, de cair na alienaçao e na dinâmica das massas. Medo da violência também, medo de levar. Medo de ceder, de nao aguentar até ao fim.

A luta continua

7.3.06

Fac en Grève



Despertador as 6 da manha e metro em direçao a Boulogne. Com o bloqueio da faculdade votado em assembleia geral no dia anterior, a mobilizaçao historica começou desde manha no Institut Henri Piéron. Cadeiras, mesas, fotocopiadoras serviram para bloquear os acessos às salas de aulas e anfiteatros, barreiras humanas filtraram as entradas de professores, pesquisadores e pessoal administrativo autorizado a entrar na faculdade.
Ponto alto do dia, nova assembleia geral às 11 horas: depois de debate aceso e intervençoes calorosas de estudantes e professores, novo voto. Foi votada por curta maioria a continuaçao do bloqueio para o dia de quarta-feira.
Depois disso grande parte dos estudantes partiram para a grande manifestaçao organizada hoje em République, enquanto os restantes asseguraram o bloqueio e aproveitaram para por os pontos nos "i's" no que diz respeito à organizaçao do dia seguinte.
Amanha nova jornada de protesto prevista, com nova assembleia geral e o consequente voto para a manutençao do bloqueio (ou nao?).
Manter-vos-ei informados do desenrolar dos acontecimentos e espero brevemente fotografias para ilustrar este post.

2.3.06

It's a Wonderful Life

Estar em Paris à noite, num café em Odéon, lembrando frases, momentos, idades, os sonhos que são presente e o tempo que é futuro, encostado à rua, vendo pequenos flocos de chuva deslizarem pelo ar, e finalmente sair e ver nevar intensamente pela primeira vez, agarrar a neve como se agarra o desejo, experimentar o seu sabor e deixá-lo derreter no calor, tudo cada vez mais branco, como se nos esquecessemos do que é impuro, do que já morreu, de tudo o que é feio, e por fim viver sob um primeiro nevão, é ser, por esse eterno momento que fica no (nosso) cinema, James Stewart a redescobrir a sua vida e a de todos no filme mais bonito de Capra. Tudo se torna simples e inspirador, como a sua cor, como um pequeno texto.

25.2.06

Dior, Yves St-Laurent, D&G, Prada...

"Os franceses inventaram a ideia de luxe e sempre se dispuseram a pagar para a pôr em pratica, ou, em faltando o dinheiro, a procurar imitaçoes tao baratas quanto engenhosas.(...)
Nao ha nada de mais definitivo ou assustador do que o modo como um parisiense dispara estas palavras : "C'est fini! Ca? C'est dépassé, c'est démodé". Até as crianças dizem isto com um à vontade implacàvél."
Edmund White, Paris, Os Passeios de um Flâneur

Paris é a cidade do luxo e os franceses o povo do luxo. Tudo é, melhor, pode tornar-se produto de luxo: o chocolate é luxo, o azeite, o vinho, o queijo...
Dior, Gucci, Dolce & Gabana sao marcas e roupas que so existem nos anuncios e nas revistas de moda. Em Paris existem as pessoas que as usam e mais, que fazem filas interminaveis para poder comprar uma mala Gucci, uns sapatos Prada, uns jeans Dolce & Gabana!
Foi um grande choque para mim o confronto com esta sociedade em que a moda é por si so um valor, um argumento. Para mim sempre foi qualquer coisa de acessorio, secundario. O parecer tomou o lugar do ser. E ha modas para tudo: para os livros (os escritores da moda...), os filmes, a musica, os cigarros...Nao foi por acaso que a palavra "démodé" nasceu na lingua francesa...A moda invade e transforma todos os aspectos da vida ao longo de uma fronteira ténue entre consumismo, futilidade e ao mesmo tempo savoir-vivre e estética.
Em Paris a palavra "moda" ganha o seu verdadeiro sentido.

Citaçoes

"Se dissesse, como creio, que a amabilidade é o traço caracteristico dos parisienses, quer-me parecer que eles se sentiriam ofendidos. "Eu nao quero ser amavél!"

Stendhal, De l'amour

"O facto de termos vivido em Paris deixa-nos incapaciados para vivermos em qualquer outro sitio, incluindo Paris."

John Ashbery (citado in The Last Avant-Garde, de David Lehman)

"O parisiense interessa-se por tudo e, no fim de contas, por nada(...) Intoxicado como esta por tudo o que é novo a cada dia que passa, o parisiense, seja qual fôr a sua idade, vive como uma criança. Queixa-se de tudo, tolera tudo, saboreia tudo, sente tudo de um modo apaixonado, abandona tudo com a maior indiferença - os seus reis, as suas conquistas, a sua gloria, o seu idolo, seja ele de bronze ou de vidro..."

Balzac

24.2.06

Le Faux Printemps, Hemingway à Paris

Com um ar posto executivo, saio sem deixar rastos de um espaço imenso de eco e vazio, para me atirar de novo às ruas de Paris, passando pela rua dos Portugueses, que como nós, é estreita, fechada, e está em obras (estamos quand-même no XVIème), e a caminho de outra estação, em frente a um Hotel de estrelas, que descem para as limousines, e nós para o subterrâneo. Por muita rapidez, semelhante a sucessivos cortes numa sequência cinematográfica, encontro-me muito rapidamente e com antecedência no cruzamento combinado, ainda cá em baixo. J'attends, et je prends mon bouquin:
Nous fîmes un merveilleux repas chez Michaud, quand nous pûmes enfin pénétrer dans le restaurant; mais quand nous eûmes terminé et qu'il ne fût plus question d'attribuer à la faim le sentiment qui ressemblait à une faim, et qui nous avait saisit lorsque nous nous trouvions sur le pont, ce sentiment subsistait en nous. Il subsistait alors que nous prenions l'autobus pour rentrer. Il subsistait quand nous entrâmes dans la chambre, et, alors même que nous étions couchés et que nous avions fait l'amour dans le noir, il subsistait encore. Quand je m'éveillai devant les fenêtres largement ouvertes et vis le clair de lune sur les toits des hautes maisons, il subsistait. J'abritai mon visage du clair de lune, dans l'ombre, mais je ne pouvais dormir et restai reveillé, l'esprit obsédé. Nous nous étions réveillés deux fois l'un et l'autre, au cours de la nuit, et ma femme dormait paisiblement, maintenant, le visage éclairé par la lune. Je tentai de bannir cette obsession. C'était trop stupide. La vie m'avait paru si simple ce matin-là, quand, au réveil, j'avais découvert le faux printemps et entendu le pipeau du berger conduisant ses chèvres, et lorsque j'etais sorti pour acheter le journal des courses.
Mais Paris était une très vieille ville, et nous étions jeunes et rien n'était simple, ni même la pauvreté, ni la richesse soudaine, ni le clair de lune, ni le bien, ni le mal, ni le souffle d'un être endormi à vos côtés dans le clair de lune.
Com a mente a ler, e os olhos fixos no ponto por onde passam e partem as pequenas carruagens à minha frente, e pessoas a voarem em todos os sentidos, tudo num plano fixo, releio de novo a passagem, desta vez interrompida por quem esperava, com outros olhares e outras imagens. E quando tudo se junta, paro no meu pensamento e no tempo e sei, nesse momento, o que é Paris.

23.2.06

Jouissez sans entraves (dans la rue, dans la rue)

A noite ontem estava um pouco menos fria, pude assim sair de um cocktail (travail oblige) de casaco aberto e cachecol no ar, à Doinel, a correr até à próxima estação de métro. Antes, nesses mesmos tubos subterrâneos, locais tão cinematográficos e palco de encontros e desencontros, tentava lembrar-me do nome da senhora que deveria cumprimentar, sem grande sucesso... Apenas me vinha à cabeça: Antoine Doinel, Antoine Doinel, Antoine Doinel, Fabienne Tabard, Fabienne Tabard, Fabienne Tabard, Christine Darbon, Christine Darbon, Christine Darbon, Elizabeth, oui, Elizabeth Antébi! Já podia viajar descansado.
Corria assim até à estação, a voar pelas escadas, quase saltando por cima da barreira do bilhete, e vejo-me de frente com as pequenas carruagens da minha linha a fugirem de mim, até ao destino onde não chegava. Allez, un taxi.
Já dentro do taxi, da Etoile até à Rue des Ecoles, a caminho de uma pequena cinemateca ("ils passent des vieux films là bas, non?", reage o taxista ao meu pedido de destination), passo pelo centro da cidade, acompanhando o Sena, as suas pontes, o cais iluminado, as ruas históricas, as fachadas limpas ("on peut pas les toucher", felizmente, confirma-me ele). Tudo tão bonito, maior que a História.
"Oh, Paris, c'est toute une histoire... Mais il n'y a plus d'ambiance, c'est toujours la plus belle ville du monde, mais elle a un peu perdu son âme. Il n'y a personne dans les rues, tout le monde s'habille pareil, tous avec leurs téléphones portables à machin, ordinateurs, et tout ça... Il n'y avait rien de ça quand j'avais vôtre âge. Chacun pensait pour lui, on sentait qu'on voulait faire des choses, on avait des idées, vous savez. Moi, quand j'étais jeune, j'étais révolutionnaire. J'ai vécu pas mal de trucs... Vous savez, les jeunes, ça sert à ça, hein, à faire des révolutions! Je sais que j'éxagère un peu, vous comprenez, mais les gens, ces temps-ci, sont devenus égoistes. Plus rien ne se passe. Oh, puis... voilà, on est arrivé, c'est le 23, non?".
Agradeço e saio do taxi parisien, a pensar talvez que, afinal, nunca fui jovem, pensei sempre como um velho - aquele que foi, realmente, noutro tempo, jovem. Vejo o meu destino final à minha frente, o taxista anda devagarinho, já sozinho, para ver de quem se tratava quando lhe disse - "quelqu'un m'attend, il faut que je sorte, merci, au revoir", à parisiense, tudo na mesma frase, as duas últimas palavras com um toque musical ascendente. Ce soir, Max Ophuls, a elegância do cinema, outras histórias não contadas e desvendadas numa noite, pela carta de uma mulher desconhecida.
"Oh, Paris, c'est toute une histoire..."

22.2.06

Paris by Foto

Brindo-vos com algumas fotografias dos lugares mais paradigmaticos de Paris. Da autoria do Francisco Valente.




suite...




21.2.06

Ultimatum Futurista às geraçoes portuguesas do século XX

Peço desculpa mas depois de ter voltado a ler isto nao me consegui impedir de pô-lo no blog...Almada continua actual de maneira preocupante depois de tanto tempo, um verdadeiro precursor. Se puderem nao deixem de ler este ultimato.


"(...) Eu nao pertenço a nenhuma das geraçoes revolucionarias. Eu pertenço a uma geraçao construtiva.
(...) Eu sou aquele que se espanta da propria personalidade e creio-me portanto, como português, com o direito de exigir uma patria que me mereça. Isto quer dizer: eu sou português e quero portanto que Portugal seja a minha patria.
Eu nao tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para nao ter, como vos outros, a cobardia de deixar apodrecer a patria.
(...) Hoje é a geraçao portuguesa do século XX quem dispoe de toda a força criadora e construtiva para o nascimento de uma nova patria inteiramente portuguesa e inteiramente actual prescindindo em absoluto de todas as épocas precedentes.
(...)Portugal é um pais de fracos. Portugal é um pais decadente:
1 - Porque a indiferença absorveu o patriotismo.
2 - Porque aos nao indiferentes interessa mais a politica dos partidos do que a propria expressao da patria, e sucede sempre que a expressao da patria é explorada em favor da opiniao publica. Nao é o sentimentalismo desta exploraçao o que eu quero evidenciar. Eu quero muito simplesmente dizer que os interesses dos partidos prejudicam sempre o interesse comum da patria. Ainda por outras palavras: a condiçao menos necessaria a força de uma naçao é o ideal politico.
(...) 4 - Porque o sentimento-sintese do povo português é a saudade e a saudade é uma nostalgia morbida dos temperamentos esgotados e doentes. O fado, manifestaçao popular da arte nacional, traduz apenas esse sentimento-sintese. A saudade prejudica a raça tanto no seu sentido atavico porque é decadencia, como pelo seu sentido adquirido definha e estiola. (...)"

José de Almada-Negreiros

5.2.06

Chez Duarte & Luca






A noite de ontem marcou a abertura das festas em casa do Duarte para o novo ano de 2006. Mais uma vez a densidade de populaçao naquela casa esteve perto das 10 pessoas por metro quadrado, a humidade devia estar nos 99% e a temperatura perto dos 40 graus!!
Nada que uma cerveja e uma banheira cheia de gelo nao curem...



No seguimento do post anterior...

"Comment savons-nous que nous savons quelque chose? "

Mudança de sala. Somos recambiados para um pequeno anfiteatro. Entramos timidamente ao som de uma agradavél musica de fundo: Miles Davis. Pouca luz, um frio de rachar, esqueceram-se de ligar o aquecimento. Em cima do estrado, um punhado de artigos de jornal: Le Monde, Le Nouvel Observateur, Libération...
Assim começou a minha ultima aula da semana, sexta-feira às três da tarde.
Apos algumas explicaçoes de natureza pratica, o primeiro slide: "Comment savons-nous que nous savons quelque chose?"
Nao podia começar melhor nao acham? Seguiram-se citaçoes de La Fontaine, Proust, Raymond Aron, Jospin..., quadros de Hooper e outros tantos. Falou-se de quase tudo excepto do tema da cadeira: os psicotropicos.
Aula de sociedade, de espirito critico, confrontaçao com o sistema e os paradoxos de uma sociedade apressada. Tudo isto partindo - digo eu - de uma bela maxima, esquecida demasiadas vezes: "Toda a autoridade ou hierarquia deve ser posta em causa e provar o seu fundamento".
Isto sim é "A Universidade" com maiuscula e que algumas vezes tive a sorte de encontrar. O tao democratizado e republicano ensino superior publico francês, de que tanto se orgulham (com razao), herdeiro do Iluminismo, da Revoluçao Francesa e de Maio de 68 parece ter perdido o espirito contestatario de outros tempos, o vigor e a insubmissao que tanto deram que falar nesses momentos de revoluçao do pensamento, da sociedade e politica.
Nao que a culpa esteja toda do lado do ensino: os alunos sao outros, consumidos por e consumindo a Star Ac', H&M, reality shows e revistas people. Os "cérebros" sao sugados para um ensino paralelo, privado e formatado que constituem as Grandes Ecoles, de onde saem as elites do pais. Instaurou-se um ciclo fechado e duravél, praticamente monarquico, em que o poder passa "hereditariamente" dos poderosos para os futuros poderosos.
Mas porque sou incapaz de ser fatalista, nao posso acabar o texto assim.
E claro que, pelo simples facto de a grande maioria da populaçao conseguir ter acesso de forma praticamente gratuita a um ensino secundario e superior de qualidade (apesar de tudo), as excepçoes à regra existem, felizmente.
Portanto, porque a esperança é a ultima a morrer, digamos com os estudantes de Maio 68:

"Soyez réalistes, exigez l'impossible"


P.S.: "Comment savons-nous que nous savons quelque chose?
Lorsque nous sommes capables de réaliser ce que nous affirmons savoir."