27.1.06

Presidenciais 2006

Eleiçoes presidenciais em Portugal, mobilizaçao geral no Consulado em Paris. A communidade emigrante reunida, eu inclusive, no posto de Secretario da mesa de voto n°6. Primeira participaçao activa numa eleiçao nacional, ver a maquina eleitoral a funcionar por dentro nao deixa de nos dar uma outra visao da coisa.O lacrar da urna com o brazao do consulado português marca o ponto alto do dia. Fui dos primeiros a votar, as 8 da manha de Sexta-feira 20.
Mas mais importanto que o acto eleitoral em si, as pessoas que conheci. Entre delegados dos partidos e colegas nas mesas de voto, encontramos de tudo, de Bragança a Olhao, da esquerda e da direita. Pessoas fabulosas estes portugueses da Francia!!
Foram dois dias a ouvir historias do arco da velha, do Portugal de outros tempos, da ditadura, do 25 Abril e de como ele se viveu longe da patria. Historias estas patrocinadas na maior parte dos casos pelo meu colega Escrutinador Abilio Laceiras, correspondente de imprensa, livre pensador e cidadao do Mundo, que trata por "tu" Cavaco Silva e Mario Soares!
Sob ameaça de piquete por parte dos delegados do PCP, o Consul viu-se obrigado a instalar mesa e sitio para o convivio durante estas eleiçoes. Convivio esse de que se encarregaram os mesmos delegados do PC, trazendo o pao, o queijo e os enchidos. Bela petiscada!!
Acima de tudo a impressao de ter encontrado uma comunidade activa, solidaria e envolvida na vida politica e civica. Estaçao de radio (a famosa Radio Alfa), 5 associaçoes, missas, clubes desportivos (o Créteil Lusitanos pois claro!!), clube juvenil...a lista é grande. Quem dizia que os portugueses sofrem de falta de activismo e associativismo tem aqui uma prova de contrario.
A verdade é que estes dois dias de eleiçoes foram uma prova de que os portugueses podem, sabem e gostam de fazer as coisas bem feitas. E nao precisam de receber nenhuma recompensa por isso!! Ou seja, pessoas empenhadas e conscientes de que trabalham para um bem commum e necessario, sao voluntariamente profissionais e competentes.E esta hein?
E para quem se queixa de que nao ha formas de se envolver politicamente em Portugal, mexam-se e voluntariem-se para mesas de voto e iniciativas do género. Nao é ficando à espera que a politica venha bater-vos a porta que se forma o activismo (activismo vem de "activo" se repararem bem...).
Para coroar esta participaçao, reportagem na RTP da autoria de Antonio Esteves Martins, testemunhando "os emigrantes a votar".

23.1.06

"Michelle, ma belle..."



Quem ja veio a Paris sabe do que estou a falar. Todos ja ouvimos falar da beleza das holandesas, das curvas das brasileiras, da perfeiçao das suecas...Falta falar do "charme" das parisienses. Pois, do charme...e o que é o charme perguntam vocês?
Acho que ninguém sabe bem explicar, nem os proprios dicionarios. Se tivesse que o definir, diria que o charme é seduçao e magia, qualquer coisa que nos atrai, sem sabermos bem porquê.E um todo, diferente da soma das suas partes, que produz um efeito inexplicavel.
E quando me pedem para falar das parisienses, é a palavra charme que me vêm à cabeça.Nao sao corpos esculturais, ou beleza de top model, mas sim "salero" como dizem os espanhois, ou pinta como nos lhe chamamos. E qualquer coisa que faz com que estas raparigas tenham um ar intocavel, como que flutuando por cima dos passeios e do commun dos mortais, ou seja eu.
Paixao a cada esquina, desgosto de amor a cada estaçao de metro. Agora sim percebo porque os franceses têm a expressao "coup de foudre".
Tudo isto resumido no titulo de um livro em que peguei hoje na Gare de Montparnasse: "A insustentavel leveza do ser" de Milan Kundera. Sera que ele descobriu o segredo do charme das parisienses?

"Le metro...le boulot...puis dodo.A Paris, à Rome ou à Saint Lieu prenez le temps de vivre heureux" Paul Valéry



A vida do parisiense commun é fatalmente pautada pelo metro. Todas as manhas um percurso mecânico e automatico, em que jà nao se olha nem para as saidas, nem para as indicaçoes, nem para as pessoas. Limitamo-nos a seguir os nossos proprios passos. Horas de transporte em que a consciência esta ausente, em que so ouvimos o apito insuportavél de cada vez que fecham as portas da carruagem. Somos apenas um no meio deste grande rebanho, massa indiferenciada caminhando para a alienaçao.

Nao se pode cair no dominio do metro, até porque esta viagem pode e deve ser mais do que um tempo morto. E a altura em que um sorriso de alguém, a simpatia de outro passageiro, a expressao de agradecimento da senhora a quem damos o lugar ou a beleza da rapariga que se sentou à nossa frente ganham todo o sentido. Momentos efémeros a que aprendemos a dar o devido valor, num quotidiano cada vez mais cinzento e utilitario. E preciso humanizar, mesmo nos "tempos mortos" senao tudo perde o sentido. Assim, fico contente se houver uma troca de sorrisos, se puder admirar uma rapariga, se houver um olhar cumplice...

22.1.06

"We'll always have Paris..."



Parece que o Francisco me roubou a deixa, a mim e ao Humphrey Bogart. Vou aproveità-la: é verdade que teremos sempre Paris, nao apenas uma, mas varias Paris.
Teremos a Paris de "Casablanca", da Guerra e da Résistance. Ou entao a Paris da Belle époque, dos saloes e "thés dançants" da Exposiçao Universal do principio do século. A Paris de Sartre e Beauvoir, Saint-Germain des Près e o jazz, os cafés littéraires comme o "Flore" ou o "Deux Magots", a "Brasserie Lipp" onde se fez grande parte da politica da 5ème République. A Paris revolucionària e escaldante do Maio 68 e dos movimentos estudantis. Até a Paris de "Amélie Poulain", da butte Montmartre e dos pintores, do antigo atelier de Picasso e tantos outros.
E a "nossa" Paris, mistura de todas as outras e unica ao mesmo tempo. Cada um guarda para si uma parte de Paris, um momento, uma musica que é so nossa e que so nos temos o privilégio de viver. Essa é a magia da cidade Luz: consegue ser de 10 milhoes de pessoas, da Historia e ao mesmo tempo tao singularmente nossa.
Termino como começei, com "Casablanca":

"Here's looking to you kid"
Viver em Paris é sempre um acontecimento. De todas as diferentes maneiras que são possíveis, parece-me, depois de apenas alguns dias na cidade, que surgem algumas coisas como pequenos pontos de eternidade nesse dia-a-dia, tanto no mais calmo, como no mais boémio.
O primeiro choque é a arte dos apartamentos de luz acesa e de cortinas abertas. À noite nunca se anda sozinho em Paris - estão à nossa volta prédios onde a intimidade está aberta àquele que passa, espreitamos e vemos quadros ou posters pendurados, livros a fazer de prateleiras, velas ou luzes, conversas e convívio, ou outros indivíduos mais solitários mas nunca sozinhos.
Paris não tem a luz de Lisboa, mas é uma cidade iluminada. Ideias vivem no ar, músicas, livros e outras artes encontram-se em ruas, cafés, casas, ou mesmo nos transportes públicos. O facto de entrar num cinema, pequena cinemateca de bairro (como há em quase cada um), descer as escadas sombrias a caminho da escuridão da sala, sentarmo-nos e repararmos num único poster de um quadro de Ingres, é algo de novo que nos faz lembrar qualquer coisa - que estamos aqui para existir, e englobar o nosso viver dentro desse doce toque que a arte nos traz.
Se saímos de um recanto com Jazz de St. Germain dos anos 20, como se o tempo nesta cidade não pesasse, entramos no métro e caímos num pequeno grupo de violinistas, a tocar no cruzamento entre duas linhas para todos os que passam - não utentes de transportes públicos, mas pequenos potenciais de qualquer coisa que nos faz mexer, e que nos faz ultrapassar, quase sem dar por ela, uma tal barreira imaginária conformista que abate o nosso pensar quotidiano. Aqui, somos todos fabulosos. Nesta estação subterrânea.
Essa necessidade de viver por mais provoca certas coisas. Como a de ler constantemente. Em Paris, toda a gente lê, e tudo é interessante. Depois de algumas manhãs em que se se cruza com Crime e Castigo, Madame Bovary, livros de História de Arte, clássicos da Oxford, ou todos aqueles "pequenos" livros de "pequenos" autores que parece que só os franceses lêem, de todos os livres de poche, a maior invenção de sempre, queremos também completar a nossa imagem da cidade com essa pequena preciosidade - o livro.
Tal como o prazer está na vida, é natural que as mercearias e mercados participem nisso. Pequenos fóruns matinais também luminosos, o queijo e o vinho também nos lembram como tudo acaba por ser acessível, fácil, e para todos os gostos. E se os franceses não vivem de barriga inchada é porque esse prazer não se acaba enterrado no fundo de uma pança redonda ou chata - o sabor do queijo e o calor do vinho são sim producentes, e muito mais que complementos, da tertúlia da amizade, ou do charme do amor, que consegue espantar em cada canto desta cidade.
Muitas coisas se poderão escrever sobre Paris, muitos já o fizeram. Mas o que toda a gente pode dizer, é que Paris não se esquece. Talvez o mais simples e verdadeiro será sempre dizer: we'll always have Paris.

19.1.06

Paris é uma festa



"Il n'y a jamais de fin à Paris et le souvenir qu'en gardent tous ceux qui y ont vécu diffère d'une personne à l'autre. Nous y sommes toujours revenus, et peu importait qui nous étions, chaque fois, ou comment il avait changé, ou avec quelles difficultés - ou quelles commodités - nous pouvions nous y rendre. Paris valait toujours la peine, et vous receviez toujours quelque chose en retour de ce que vous lui donniez. Mais tel était Paris de notre jeunesse, au temps où nous étions très pauvres et très heureux."
Ernest Hemingway, "Paris est une fête".

The coolest place in town





Nao podia deixar de mostar, para aqueles que nao conhecem, a minha casa em Paris. "Chez Duarte&JB", o apartamento mais bem frequentado da cidade: pois é, aqui so entra a nata, "la crème de la crème" da alta roda parisiense. A competiçao para melhor casa este ano esta mais cerrada, com a entrada em jogo da casa do Duarte Graça&Italianos Lda., mas eu acho que continuo na frente do pelotao,pois consegui a proeza de viver com uma rock star(JB)!E que rock star!

18.1.06

Primeira Carta


Era uma vez uma cidade, Paris, e nela viviam milhoes de pessoas. Fazendo hoje parte dessas pessoas, decidimos mostrar o que por ca se passa, tal como o fez Eça de Queiroz nas suas "Cartas de Paris". Cada qual à sua maneira, nao tao bem quanto Eça claro, decidimos dar a ver e se possivel viver o que é Paris e o que somos nela.
Nao esperem uma ordem cronologica nem mesmo logica dos acontecimentos, que vao surgir "au fur et à mesure". Acontecimentos esses que dirao respeito a tudo e mais alguma coisa, contando com a contribuiçao de aqueles que quiserem ajudar à grande sopa de letras que esperamos fazer deste blog.
Nos ca estaremos, uns dias mais do que outros. Vocês nao sei, mas sao bemvindos.

A bientôt, à Paris.


P.S.: desculparao a falta de tils e alguns acentos, mas os teclados franceses nao me permitem usufruir da lingua portuguesa em todo o seu esplendor.E ainda dizem que os espanhois é que têm o rei na barriga...