22.1.06

Viver em Paris é sempre um acontecimento. De todas as diferentes maneiras que são possíveis, parece-me, depois de apenas alguns dias na cidade, que surgem algumas coisas como pequenos pontos de eternidade nesse dia-a-dia, tanto no mais calmo, como no mais boémio.
O primeiro choque é a arte dos apartamentos de luz acesa e de cortinas abertas. À noite nunca se anda sozinho em Paris - estão à nossa volta prédios onde a intimidade está aberta àquele que passa, espreitamos e vemos quadros ou posters pendurados, livros a fazer de prateleiras, velas ou luzes, conversas e convívio, ou outros indivíduos mais solitários mas nunca sozinhos.
Paris não tem a luz de Lisboa, mas é uma cidade iluminada. Ideias vivem no ar, músicas, livros e outras artes encontram-se em ruas, cafés, casas, ou mesmo nos transportes públicos. O facto de entrar num cinema, pequena cinemateca de bairro (como há em quase cada um), descer as escadas sombrias a caminho da escuridão da sala, sentarmo-nos e repararmos num único poster de um quadro de Ingres, é algo de novo que nos faz lembrar qualquer coisa - que estamos aqui para existir, e englobar o nosso viver dentro desse doce toque que a arte nos traz.
Se saímos de um recanto com Jazz de St. Germain dos anos 20, como se o tempo nesta cidade não pesasse, entramos no métro e caímos num pequeno grupo de violinistas, a tocar no cruzamento entre duas linhas para todos os que passam - não utentes de transportes públicos, mas pequenos potenciais de qualquer coisa que nos faz mexer, e que nos faz ultrapassar, quase sem dar por ela, uma tal barreira imaginária conformista que abate o nosso pensar quotidiano. Aqui, somos todos fabulosos. Nesta estação subterrânea.
Essa necessidade de viver por mais provoca certas coisas. Como a de ler constantemente. Em Paris, toda a gente lê, e tudo é interessante. Depois de algumas manhãs em que se se cruza com Crime e Castigo, Madame Bovary, livros de História de Arte, clássicos da Oxford, ou todos aqueles "pequenos" livros de "pequenos" autores que parece que só os franceses lêem, de todos os livres de poche, a maior invenção de sempre, queremos também completar a nossa imagem da cidade com essa pequena preciosidade - o livro.
Tal como o prazer está na vida, é natural que as mercearias e mercados participem nisso. Pequenos fóruns matinais também luminosos, o queijo e o vinho também nos lembram como tudo acaba por ser acessível, fácil, e para todos os gostos. E se os franceses não vivem de barriga inchada é porque esse prazer não se acaba enterrado no fundo de uma pança redonda ou chata - o sabor do queijo e o calor do vinho são sim producentes, e muito mais que complementos, da tertúlia da amizade, ou do charme do amor, que consegue espantar em cada canto desta cidade.
Muitas coisas se poderão escrever sobre Paris, muitos já o fizeram. Mas o que toda a gente pode dizer, é que Paris não se esquece. Talvez o mais simples e verdadeiro será sempre dizer: we'll always have Paris.

Aucun commentaire: