25.2.06

Dior, Yves St-Laurent, D&G, Prada...

"Os franceses inventaram a ideia de luxe e sempre se dispuseram a pagar para a pôr em pratica, ou, em faltando o dinheiro, a procurar imitaçoes tao baratas quanto engenhosas.(...)
Nao ha nada de mais definitivo ou assustador do que o modo como um parisiense dispara estas palavras : "C'est fini! Ca? C'est dépassé, c'est démodé". Até as crianças dizem isto com um à vontade implacàvél."
Edmund White, Paris, Os Passeios de um Flâneur

Paris é a cidade do luxo e os franceses o povo do luxo. Tudo é, melhor, pode tornar-se produto de luxo: o chocolate é luxo, o azeite, o vinho, o queijo...
Dior, Gucci, Dolce & Gabana sao marcas e roupas que so existem nos anuncios e nas revistas de moda. Em Paris existem as pessoas que as usam e mais, que fazem filas interminaveis para poder comprar uma mala Gucci, uns sapatos Prada, uns jeans Dolce & Gabana!
Foi um grande choque para mim o confronto com esta sociedade em que a moda é por si so um valor, um argumento. Para mim sempre foi qualquer coisa de acessorio, secundario. O parecer tomou o lugar do ser. E ha modas para tudo: para os livros (os escritores da moda...), os filmes, a musica, os cigarros...Nao foi por acaso que a palavra "démodé" nasceu na lingua francesa...A moda invade e transforma todos os aspectos da vida ao longo de uma fronteira ténue entre consumismo, futilidade e ao mesmo tempo savoir-vivre e estética.
Em Paris a palavra "moda" ganha o seu verdadeiro sentido.

Citaçoes

"Se dissesse, como creio, que a amabilidade é o traço caracteristico dos parisienses, quer-me parecer que eles se sentiriam ofendidos. "Eu nao quero ser amavél!"

Stendhal, De l'amour

"O facto de termos vivido em Paris deixa-nos incapaciados para vivermos em qualquer outro sitio, incluindo Paris."

John Ashbery (citado in The Last Avant-Garde, de David Lehman)

"O parisiense interessa-se por tudo e, no fim de contas, por nada(...) Intoxicado como esta por tudo o que é novo a cada dia que passa, o parisiense, seja qual fôr a sua idade, vive como uma criança. Queixa-se de tudo, tolera tudo, saboreia tudo, sente tudo de um modo apaixonado, abandona tudo com a maior indiferença - os seus reis, as suas conquistas, a sua gloria, o seu idolo, seja ele de bronze ou de vidro..."

Balzac

24.2.06

Le Faux Printemps, Hemingway à Paris

Com um ar posto executivo, saio sem deixar rastos de um espaço imenso de eco e vazio, para me atirar de novo às ruas de Paris, passando pela rua dos Portugueses, que como nós, é estreita, fechada, e está em obras (estamos quand-même no XVIème), e a caminho de outra estação, em frente a um Hotel de estrelas, que descem para as limousines, e nós para o subterrâneo. Por muita rapidez, semelhante a sucessivos cortes numa sequência cinematográfica, encontro-me muito rapidamente e com antecedência no cruzamento combinado, ainda cá em baixo. J'attends, et je prends mon bouquin:
Nous fîmes un merveilleux repas chez Michaud, quand nous pûmes enfin pénétrer dans le restaurant; mais quand nous eûmes terminé et qu'il ne fût plus question d'attribuer à la faim le sentiment qui ressemblait à une faim, et qui nous avait saisit lorsque nous nous trouvions sur le pont, ce sentiment subsistait en nous. Il subsistait alors que nous prenions l'autobus pour rentrer. Il subsistait quand nous entrâmes dans la chambre, et, alors même que nous étions couchés et que nous avions fait l'amour dans le noir, il subsistait encore. Quand je m'éveillai devant les fenêtres largement ouvertes et vis le clair de lune sur les toits des hautes maisons, il subsistait. J'abritai mon visage du clair de lune, dans l'ombre, mais je ne pouvais dormir et restai reveillé, l'esprit obsédé. Nous nous étions réveillés deux fois l'un et l'autre, au cours de la nuit, et ma femme dormait paisiblement, maintenant, le visage éclairé par la lune. Je tentai de bannir cette obsession. C'était trop stupide. La vie m'avait paru si simple ce matin-là, quand, au réveil, j'avais découvert le faux printemps et entendu le pipeau du berger conduisant ses chèvres, et lorsque j'etais sorti pour acheter le journal des courses.
Mais Paris était une très vieille ville, et nous étions jeunes et rien n'était simple, ni même la pauvreté, ni la richesse soudaine, ni le clair de lune, ni le bien, ni le mal, ni le souffle d'un être endormi à vos côtés dans le clair de lune.
Com a mente a ler, e os olhos fixos no ponto por onde passam e partem as pequenas carruagens à minha frente, e pessoas a voarem em todos os sentidos, tudo num plano fixo, releio de novo a passagem, desta vez interrompida por quem esperava, com outros olhares e outras imagens. E quando tudo se junta, paro no meu pensamento e no tempo e sei, nesse momento, o que é Paris.

23.2.06

Jouissez sans entraves (dans la rue, dans la rue)

A noite ontem estava um pouco menos fria, pude assim sair de um cocktail (travail oblige) de casaco aberto e cachecol no ar, à Doinel, a correr até à próxima estação de métro. Antes, nesses mesmos tubos subterrâneos, locais tão cinematográficos e palco de encontros e desencontros, tentava lembrar-me do nome da senhora que deveria cumprimentar, sem grande sucesso... Apenas me vinha à cabeça: Antoine Doinel, Antoine Doinel, Antoine Doinel, Fabienne Tabard, Fabienne Tabard, Fabienne Tabard, Christine Darbon, Christine Darbon, Christine Darbon, Elizabeth, oui, Elizabeth Antébi! Já podia viajar descansado.
Corria assim até à estação, a voar pelas escadas, quase saltando por cima da barreira do bilhete, e vejo-me de frente com as pequenas carruagens da minha linha a fugirem de mim, até ao destino onde não chegava. Allez, un taxi.
Já dentro do taxi, da Etoile até à Rue des Ecoles, a caminho de uma pequena cinemateca ("ils passent des vieux films là bas, non?", reage o taxista ao meu pedido de destination), passo pelo centro da cidade, acompanhando o Sena, as suas pontes, o cais iluminado, as ruas históricas, as fachadas limpas ("on peut pas les toucher", felizmente, confirma-me ele). Tudo tão bonito, maior que a História.
"Oh, Paris, c'est toute une histoire... Mais il n'y a plus d'ambiance, c'est toujours la plus belle ville du monde, mais elle a un peu perdu son âme. Il n'y a personne dans les rues, tout le monde s'habille pareil, tous avec leurs téléphones portables à machin, ordinateurs, et tout ça... Il n'y avait rien de ça quand j'avais vôtre âge. Chacun pensait pour lui, on sentait qu'on voulait faire des choses, on avait des idées, vous savez. Moi, quand j'étais jeune, j'étais révolutionnaire. J'ai vécu pas mal de trucs... Vous savez, les jeunes, ça sert à ça, hein, à faire des révolutions! Je sais que j'éxagère un peu, vous comprenez, mais les gens, ces temps-ci, sont devenus égoistes. Plus rien ne se passe. Oh, puis... voilà, on est arrivé, c'est le 23, non?".
Agradeço e saio do taxi parisien, a pensar talvez que, afinal, nunca fui jovem, pensei sempre como um velho - aquele que foi, realmente, noutro tempo, jovem. Vejo o meu destino final à minha frente, o taxista anda devagarinho, já sozinho, para ver de quem se tratava quando lhe disse - "quelqu'un m'attend, il faut que je sorte, merci, au revoir", à parisiense, tudo na mesma frase, as duas últimas palavras com um toque musical ascendente. Ce soir, Max Ophuls, a elegância do cinema, outras histórias não contadas e desvendadas numa noite, pela carta de uma mulher desconhecida.
"Oh, Paris, c'est toute une histoire..."

22.2.06

Paris by Foto

Brindo-vos com algumas fotografias dos lugares mais paradigmaticos de Paris. Da autoria do Francisco Valente.




suite...




21.2.06

Ultimatum Futurista às geraçoes portuguesas do século XX

Peço desculpa mas depois de ter voltado a ler isto nao me consegui impedir de pô-lo no blog...Almada continua actual de maneira preocupante depois de tanto tempo, um verdadeiro precursor. Se puderem nao deixem de ler este ultimato.


"(...) Eu nao pertenço a nenhuma das geraçoes revolucionarias. Eu pertenço a uma geraçao construtiva.
(...) Eu sou aquele que se espanta da propria personalidade e creio-me portanto, como português, com o direito de exigir uma patria que me mereça. Isto quer dizer: eu sou português e quero portanto que Portugal seja a minha patria.
Eu nao tenho culpa nenhuma de ser português, mas sinto a força para nao ter, como vos outros, a cobardia de deixar apodrecer a patria.
(...) Hoje é a geraçao portuguesa do século XX quem dispoe de toda a força criadora e construtiva para o nascimento de uma nova patria inteiramente portuguesa e inteiramente actual prescindindo em absoluto de todas as épocas precedentes.
(...)Portugal é um pais de fracos. Portugal é um pais decadente:
1 - Porque a indiferença absorveu o patriotismo.
2 - Porque aos nao indiferentes interessa mais a politica dos partidos do que a propria expressao da patria, e sucede sempre que a expressao da patria é explorada em favor da opiniao publica. Nao é o sentimentalismo desta exploraçao o que eu quero evidenciar. Eu quero muito simplesmente dizer que os interesses dos partidos prejudicam sempre o interesse comum da patria. Ainda por outras palavras: a condiçao menos necessaria a força de uma naçao é o ideal politico.
(...) 4 - Porque o sentimento-sintese do povo português é a saudade e a saudade é uma nostalgia morbida dos temperamentos esgotados e doentes. O fado, manifestaçao popular da arte nacional, traduz apenas esse sentimento-sintese. A saudade prejudica a raça tanto no seu sentido atavico porque é decadencia, como pelo seu sentido adquirido definha e estiola. (...)"

José de Almada-Negreiros

5.2.06

Chez Duarte & Luca






A noite de ontem marcou a abertura das festas em casa do Duarte para o novo ano de 2006. Mais uma vez a densidade de populaçao naquela casa esteve perto das 10 pessoas por metro quadrado, a humidade devia estar nos 99% e a temperatura perto dos 40 graus!!
Nada que uma cerveja e uma banheira cheia de gelo nao curem...



No seguimento do post anterior...

"Comment savons-nous que nous savons quelque chose? "

Mudança de sala. Somos recambiados para um pequeno anfiteatro. Entramos timidamente ao som de uma agradavél musica de fundo: Miles Davis. Pouca luz, um frio de rachar, esqueceram-se de ligar o aquecimento. Em cima do estrado, um punhado de artigos de jornal: Le Monde, Le Nouvel Observateur, Libération...
Assim começou a minha ultima aula da semana, sexta-feira às três da tarde.
Apos algumas explicaçoes de natureza pratica, o primeiro slide: "Comment savons-nous que nous savons quelque chose?"
Nao podia começar melhor nao acham? Seguiram-se citaçoes de La Fontaine, Proust, Raymond Aron, Jospin..., quadros de Hooper e outros tantos. Falou-se de quase tudo excepto do tema da cadeira: os psicotropicos.
Aula de sociedade, de espirito critico, confrontaçao com o sistema e os paradoxos de uma sociedade apressada. Tudo isto partindo - digo eu - de uma bela maxima, esquecida demasiadas vezes: "Toda a autoridade ou hierarquia deve ser posta em causa e provar o seu fundamento".
Isto sim é "A Universidade" com maiuscula e que algumas vezes tive a sorte de encontrar. O tao democratizado e republicano ensino superior publico francês, de que tanto se orgulham (com razao), herdeiro do Iluminismo, da Revoluçao Francesa e de Maio de 68 parece ter perdido o espirito contestatario de outros tempos, o vigor e a insubmissao que tanto deram que falar nesses momentos de revoluçao do pensamento, da sociedade e politica.
Nao que a culpa esteja toda do lado do ensino: os alunos sao outros, consumidos por e consumindo a Star Ac', H&M, reality shows e revistas people. Os "cérebros" sao sugados para um ensino paralelo, privado e formatado que constituem as Grandes Ecoles, de onde saem as elites do pais. Instaurou-se um ciclo fechado e duravél, praticamente monarquico, em que o poder passa "hereditariamente" dos poderosos para os futuros poderosos.
Mas porque sou incapaz de ser fatalista, nao posso acabar o texto assim.
E claro que, pelo simples facto de a grande maioria da populaçao conseguir ter acesso de forma praticamente gratuita a um ensino secundario e superior de qualidade (apesar de tudo), as excepçoes à regra existem, felizmente.
Portanto, porque a esperança é a ultima a morrer, digamos com os estudantes de Maio 68:

"Soyez réalistes, exigez l'impossible"


P.S.: "Comment savons-nous que nous savons quelque chose?
Lorsque nous sommes capables de réaliser ce que nous affirmons savoir."

2.2.06

Sirenes

Hoje de manhã, em plena reunião, na calmia organizadora do dia-a-dia de trabalho, ouço um som profundo e tenso, como se viesse do fundo de uma caverna bem subterrânea, a alertar para um perigo vindo de cima, sem verdadeira imagem, sem grande tempo.
"Você sabe o que isto é?"
O meu ar era sem dúvida esclarecedor.
"Todas as primeiras quartas-feiras do mês..."
Todas as primeiras quartas-feiras do mês, soam as sirenes-alerta dos raides aéreos da Segunda Guerra Mundial. Hoje em dia, funcionam como um teste para os bombeiros de Paris, mas a carga que essas sirenes comportam é bem mais pesada do que esse simples acto. Na verdade, basta andar um pouco pelas ruas da cidade para nos apercebermos como a memória ainda existe, e como ainda pesa. As varias placas das suas esquinas relembram-nos momentos-chave da História recente da Europa e do Mundo - o Plano Marshall, as ruas com nomes de batalhas e generais, as estátuas da República e defensoras da liberdade, as pequenas homenagens escritas em pedra a conjuntos de soldados, resumidos a mortes.
E nada disso morre. A morte mata, e devemos continuar a viver, tal como a cidade e os seus habitantes. O mesmo para a memória, que pesa, mas nunca será abandonada. Talvez seja melhor dizer que esta nunca nos abandonará.

1.2.06

La Tour Eiffel


Hoje quase nao se via a Torre Eiffel. Estava escondida por detras do nevoeiro. Talvez fosse com vergonha dos turistas. Nao a largam...Isto de ser o monumento mais visitado do mundo nao é facil.E dizer que esteve para ser desmontada depois da Exposiçao Universal...
Esta coisa de se viver na cidade da Torre Eiffel também têm que se lhe diga: cada vez que a vejo parece-me a primeira vez, é um cenàrio surreal, nunca passa a fazer parte do nosso quotidiano, nunca se torna banal. E como se fosse uma miragem, vêmo-la, mas no fundo nao acreditamos que ela esteja mesmo ali.
A torre Eiffel faz-me lembrar que estou em Paris, e o privilégio que tenho.