5.2.06

"Comment savons-nous que nous savons quelque chose? "

Mudança de sala. Somos recambiados para um pequeno anfiteatro. Entramos timidamente ao som de uma agradavél musica de fundo: Miles Davis. Pouca luz, um frio de rachar, esqueceram-se de ligar o aquecimento. Em cima do estrado, um punhado de artigos de jornal: Le Monde, Le Nouvel Observateur, Libération...
Assim começou a minha ultima aula da semana, sexta-feira às três da tarde.
Apos algumas explicaçoes de natureza pratica, o primeiro slide: "Comment savons-nous que nous savons quelque chose?"
Nao podia começar melhor nao acham? Seguiram-se citaçoes de La Fontaine, Proust, Raymond Aron, Jospin..., quadros de Hooper e outros tantos. Falou-se de quase tudo excepto do tema da cadeira: os psicotropicos.
Aula de sociedade, de espirito critico, confrontaçao com o sistema e os paradoxos de uma sociedade apressada. Tudo isto partindo - digo eu - de uma bela maxima, esquecida demasiadas vezes: "Toda a autoridade ou hierarquia deve ser posta em causa e provar o seu fundamento".
Isto sim é "A Universidade" com maiuscula e que algumas vezes tive a sorte de encontrar. O tao democratizado e republicano ensino superior publico francês, de que tanto se orgulham (com razao), herdeiro do Iluminismo, da Revoluçao Francesa e de Maio de 68 parece ter perdido o espirito contestatario de outros tempos, o vigor e a insubmissao que tanto deram que falar nesses momentos de revoluçao do pensamento, da sociedade e politica.
Nao que a culpa esteja toda do lado do ensino: os alunos sao outros, consumidos por e consumindo a Star Ac', H&M, reality shows e revistas people. Os "cérebros" sao sugados para um ensino paralelo, privado e formatado que constituem as Grandes Ecoles, de onde saem as elites do pais. Instaurou-se um ciclo fechado e duravél, praticamente monarquico, em que o poder passa "hereditariamente" dos poderosos para os futuros poderosos.
Mas porque sou incapaz de ser fatalista, nao posso acabar o texto assim.
E claro que, pelo simples facto de a grande maioria da populaçao conseguir ter acesso de forma praticamente gratuita a um ensino secundario e superior de qualidade (apesar de tudo), as excepçoes à regra existem, felizmente.
Portanto, porque a esperança é a ultima a morrer, digamos com os estudantes de Maio 68:

"Soyez réalistes, exigez l'impossible"


P.S.: "Comment savons-nous que nous savons quelque chose?
Lorsque nous sommes capables de réaliser ce que nous affirmons savoir."

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