23.2.06

Jouissez sans entraves (dans la rue, dans la rue)

A noite ontem estava um pouco menos fria, pude assim sair de um cocktail (travail oblige) de casaco aberto e cachecol no ar, à Doinel, a correr até à próxima estação de métro. Antes, nesses mesmos tubos subterrâneos, locais tão cinematográficos e palco de encontros e desencontros, tentava lembrar-me do nome da senhora que deveria cumprimentar, sem grande sucesso... Apenas me vinha à cabeça: Antoine Doinel, Antoine Doinel, Antoine Doinel, Fabienne Tabard, Fabienne Tabard, Fabienne Tabard, Christine Darbon, Christine Darbon, Christine Darbon, Elizabeth, oui, Elizabeth Antébi! Já podia viajar descansado.
Corria assim até à estação, a voar pelas escadas, quase saltando por cima da barreira do bilhete, e vejo-me de frente com as pequenas carruagens da minha linha a fugirem de mim, até ao destino onde não chegava. Allez, un taxi.
Já dentro do taxi, da Etoile até à Rue des Ecoles, a caminho de uma pequena cinemateca ("ils passent des vieux films là bas, non?", reage o taxista ao meu pedido de destination), passo pelo centro da cidade, acompanhando o Sena, as suas pontes, o cais iluminado, as ruas históricas, as fachadas limpas ("on peut pas les toucher", felizmente, confirma-me ele). Tudo tão bonito, maior que a História.
"Oh, Paris, c'est toute une histoire... Mais il n'y a plus d'ambiance, c'est toujours la plus belle ville du monde, mais elle a un peu perdu son âme. Il n'y a personne dans les rues, tout le monde s'habille pareil, tous avec leurs téléphones portables à machin, ordinateurs, et tout ça... Il n'y avait rien de ça quand j'avais vôtre âge. Chacun pensait pour lui, on sentait qu'on voulait faire des choses, on avait des idées, vous savez. Moi, quand j'étais jeune, j'étais révolutionnaire. J'ai vécu pas mal de trucs... Vous savez, les jeunes, ça sert à ça, hein, à faire des révolutions! Je sais que j'éxagère un peu, vous comprenez, mais les gens, ces temps-ci, sont devenus égoistes. Plus rien ne se passe. Oh, puis... voilà, on est arrivé, c'est le 23, non?".
Agradeço e saio do taxi parisien, a pensar talvez que, afinal, nunca fui jovem, pensei sempre como um velho - aquele que foi, realmente, noutro tempo, jovem. Vejo o meu destino final à minha frente, o taxista anda devagarinho, já sozinho, para ver de quem se tratava quando lhe disse - "quelqu'un m'attend, il faut que je sorte, merci, au revoir", à parisiense, tudo na mesma frase, as duas últimas palavras com um toque musical ascendente. Ce soir, Max Ophuls, a elegância do cinema, outras histórias não contadas e desvendadas numa noite, pela carta de uma mulher desconhecida.
"Oh, Paris, c'est toute une histoire..."

2 commentaires:

p.canha a dit…

Brilhante... je me quitte sans mots (uma tentativa - cheia de inveja - de usar a vossa lingua assim à vontade. um abraço! Comigo acontece o contrário: Eu já fui um velho, penso que agora tenho mais segurança para finalmente ser "Jovem" pensar, agir, dizer o que penso... ser revolucionário.

Constança a dit…

Que saudades.