28.3.06

La Vie en Rose

Alguns dias atrás.

Finalmente, o dia em que volto a Paris. Tudo me espera aí, os seus edifícios, os seus jardins, a sua beleza, o seu frio, a sua arte, o seu charme.

(Non, rien de...)
Senhores passageiros, welcome aborde, estamos a descer em direcção a Paris, apertem os vossos cintos, e permitam-me desejar, do vosso comandante, uma fantástica estadia nessa maravilhosa localidade, cidade do romance. Merci e aue revoirr.
(rien... non je ne regrette rien...)

Já percorro os corredores do aeroporto, já sinto os meus pés nesse solo diferente, sempre plano, já imagino o horizonte que nos acompanha por onde quer que andemos em Paris.

Ó Sophie, qual é que era a tua valise?

Entro no táxi, num parisien, com o seu típico motorista de óculos e costas direitas, fato e gravata, a conduzir calmamente, já nos arrondissements, dentro da luz da cidade, do seu movimento, das mercearias que se acotovelam com os transeuntes, dos cruzamentos que nos chamam para cada um dos lados...

Atão é no trente-cinq que fica o senhor, donc?

E depois deste novo dia de trabalho, rodeado das imagens dos nossos filmes, depois da leitura obrigatória do Pariscope, já a caminho do métro e das suas carruagens que parecem antigas e do requinte das suas portas, passando por baixo destas árvores nuas, em breve recheadas de folhas dançantes filhas da Primavera, prolonga-se o suspiro que deixamos nesta cidade, que encontramos sempre após voltar, em cada esquina, em cada placa.

Vai tira lá a fótó, tudo debaixo da Avenue des Portugais, bóra!

E à noite, no café, mais um serão de conversas que sonham, por chávenas que nos aquecem e que alimentam o desejo de ficar para sempre, pelos sítios que nos esperam, pelas histórias que encontramos...

Nélson, mete lá o Banfica e traz tremoço. Putain, já tamos a perdere?

Non, rien de rien...

26.3.06

24.3.06

Le CPE, c'est quoi?

Esta na altura de esclarecermos o que esta na origem de tanta celeuma e manifestaçao nesta França de Villepin e Chirac. Os protestos têm como vitima um novo contrato de trabalho: o Contrat Première Embauche (CPE). O dito CPE faz parte de um projecto lei intitulado "Loi sur l'égalité des chances" de que nao discutiremos aqui.

O CPE é uma categoria especial de contrato de duraçao indeterminada (Contrat Duration Indéterminée) destinado aos jovens com menos de 26 anos e às empresas do sector privado com mais de 20 assalariados. Compreende um periodo de experiência de 2 anos, durante os quais o empregador pode despedir o empregado sem qualquer tipo de justificaçao. Se isso acontecer, devera pagar um indemnizaçao no valor de 8% do salario bruto do empregado. Durante esses dois anos o empregador vê-se exonerado de cargas fiscais.

Que cada um faça o seu julgamento e se sinta livre de se manifestar.

16.3.06

L'Opéra

Ontem à noite programa de luxo: La Bayadère de Rudolph Noureev na Opéra Bastille. Chegamos meia-hora antes do começo do espectaculo, para apanharmos os bilhetes de ultima hora, a 10 euros. Ficamos num balcao no 6 andar la bem em cima, mas via-se perfeitamente.
Tenho pena de nao ter levado maquina fotografica porque a sala merece: uma arquitectura com qualquer coisa de futurista, fazendo lembrar os filmes do Star Wars, onde os balcoes estao suspensos por cima da plateia, como que flutuando no meio da sala. As vertigens foram muitas do nosso lugarzinho la em cima, dado o pé direito monumental da sala.
Tivemos direito a algumas das mais conhecidas cenas do ballet classico, com 30 tutus em palco rodopiando ao mesmo tempo, solos esgotantes, "décors" somptuosos e tudo e tudo e tudo...
Este programa de aristocrata saiu-nos por uns fabulosos 10 euros, preço de dois almoços no MacDonalds...Este sim é o privilégio de estar numa cidade como Paris, em que se pode ir à uma Opera, um teatro e um concerto pelo mesmo preço a que iriamos a um espectaculo na Gulbenkian. "Voila" a democratizaçao e promoçao da cultura.

"çà c'est Paris"

13.3.06

Un vendredi à la Sorbonne, fragments.

- 7h00 : Nous sommes encore une cinquantaine dans la Sorbonne, fatigués, attendant une relève. Beaucoup des étudiants ayant participé à la manifestation autour du bâtiment, dispersée jeudi soir par la police, attendent sur la place de la Sorbonne l'ouverture des portes pour participer à l'AG prévue à midi. Nous négocions avec le recteur M. Quénet.

- 10h30 : Après vote, nous acceptons sa proposition: enlever les barricades formées dans la Sorbonne en échange de sa couverture aux étudiants. Notre part du contrat remplie, nous discutons avec les personnels administratifs présents et recevons la visite de quelques-uns de nos professeurs.

- 12h00 : Toujours sans réponse du recteur, nous apprenons par téléphone que l'AG se tiendra finalement au Panthéon. Nous y envoyons une délégation.

- 12h30 : Le recteur réapparaît parmi les agents de sécurité, nous invitons le journaliste de M6 qui nous interviewait à lui demander directement sa décision quant à l'ouverture des portes. M.Quénet quitte les lieux sans un mot.

- 14h30: Nous apprenons que l'AG a voté le maintien de l'occupation et que de nouvelles manifestations ont lieu dans le Quartier Latin.

- 17h00 : Alors que nous organisons des groupes de travail pour le weekend (réfléxion sur une proposition alternative à la loi sur l'égalité des chances), les agents de sécurité, inquiets, nous informent qu'ils évaquent le bâtiment en raison d'une alerte à la bombe. Après une vérification de tous les sacs, nous décidons de ne pas quitter les lieux et nous rassemblons dans la cour d'honneur.

-17h20 : L'alerte a été démentie, mais nous voyons les agents de sécurité se déployer rapidement. Nous ne comprenons pas ce qui se passe. Quelques minutes plus tard, un flux continu d'étudiants se précipite vers la Cours d'Honneur. Nous sommes à présent plusieurs centaines.

- Une AG se met difficilement en place tandis qu'une barricade est construite spontanément nous séparant des agents de sécurité avec qui nous entretenions de bons rapports. L'un d'entre eux nous fait comprendre qu'ils ne peuvent plus assurer la sécurité du lieu qui se retrouve désormais sous la seule responsabilité de la police.

- Progressivement, une certaine organisation prend forme dans l'AG. Sont successivement votés: la souveraineté de l'AG, la résistance pacifique en cas d'intervention des forces d'ordre et l'occupation des lieux jusqu'au retrait du CPE et l'ouverture totale de la Sorbonne aux étudiants.

- La succession de rumeurs alarmistes sur la présence de "casseurs" et de "fascistes" dans la Sorbonne ainsi que sur l'arrivée imminente des forces d'ordre entraîne un débat chaotique sur les modalités d'occupation. Certains appellent à la création d'un service d'ordre qui se met en place dans la précipitation, sans concertation ni débat.

- Massivement entouré de journalistes, M.Mélenchon, sénateur socialiste, fait irruption dans l'amphitéâtre à la surprise générale, mettant fin aux discussions engagées: une foule hétérogène s'agglutine autour de la tribune que M.Mélenchon essaye d'investir. Certains le bousculent, d'autres le protègent, beaucoup appellent au calme et proposent de le laisser s'exprimer ou de voter sur cette éventualité. Finalement, le sénateur décide de partir et les risques de récupération du mouvement sont évoqués sans qu'un débat puisse être instauré. Cette auto-invitation a semé la discorde, créant un climat de tension et compromettant l'organisation de la suite de l'occupation.

- A partir de ce moment, il devient impossible de donner un récit cohérent car il n'y a plus un évènement qui rassemble la majorité mais une multitude de petits groupes qui circulent et s'occupent chacun à leur manière: jeux de cartes dans les couloirs, ouverture de distributeurs, discussions et piano dans l'amphitéâtre Richelieu, groupes de travail sur les textes dans les salles de TD, inscriptions à la craie sur les murs, promenades nocturnes dans la Sorbonne, tracts de l'UNI brûlés dans la Cour d'Honneur...ici un appel est lancé à monter dans la bibliothèque des étages supérieurs afin d'empêcher le jet de matériel par les fenêtres.

- Dans cette bibliothèque, tandis que certains jettent échelles, tables, extincteurs sur les forces de l'ordre postées en contrebas d'autres restent plongés dans leur lecture. Au milieu, des affrontements ont lieu entre ceux qui jettent des projectiles sur la police et ceux venus pour empêcher la dégradation de la bibliothèque et en particulier de ses livres. Ceux-ci seront ensuite protégés par les occupants.

- Pendant ce temps, quelques étudiants discutent du CPE dans l'apprtement du recteur en buvant ses bonnes bouteilles. Ils ne manqueront pas de lui laisser un mot de remerciement.

Quelques occupants de la Sorbonne, le 12 mars 2006

11.3.06

Fac en Grève II



O segundo dia de bloqueio (quarta-feira) gerou uma assembleia geral com assistência record, cerca de 600 pessoas. O voto foi desta vez feito com urnas, para evitar as criticas e ataques dos que nao consideravam o voto a mao levantada legitimo.
A maioria votou contra o bloqueio, que foi levantado no dia seguinte.
No entanto, a assembleia geral de quinta-feira - que visava encontrar outras soluçoes de mobilizaçao sem ser o bloqueio - revelou-se surpreendente. Em primeiro lugar os professores da faculdade, depois de reunidos em assembleia geral, votaram uma moçao de apoio aos estudantes grevistas, garantindo-lhes que nao vao ser marcados ausentes nem penalisados pelas aulas a que faltarem. Em seguida, o movimento provou ter-se organizado: expuseram-se as varias comissoes criadas na véspera e elegeram-se mandatarios para a comissao inter-faculdades que vai ter lugar este fim-de-semana. Surpreendentemente, os estudantes presentes começaram a prôpor o voto do bloqueio para a semana seguinte à tribuna, assunto que tinha sido deixado de fora da ordem do dia voluntariamente. Face a tanta contestaçao a tribuna decidiu proceder ao voto. A informaçao passou para o anfiteatro do lado, em aulas, que compareceu em peso para o voto. Depois da mudança de anfiteatro por falta de espaço, um numero record de mais de 700 pessoas votaram, com uma maioria a favor do bloqueio para toda a semana.
Tal reviravolta so podia deixar-me contente, pois prova que os esforços para mobilizar e consciencializar os estudantes de Paris 5 teve efeitos.
A mobilizaçao começa a atingir uma dimensao impressionante, historica. A Sorbonne foi ocupada por mais de 200 pessoas durante a noite de quinta para sexta, feito simbolico que nao acontecia desde Maio de 68.
Infelizmente, estes movimentos de massas também trazem desvarios. Sexta à noite passei numa suposta manifestaçao em frente à Sorbonne que nao era mais do que um ajuntamento de jovens bêbados, ganzados, gritando algumas palavras de ordem de vez em quando, bloqueando o boulevard Saint-Michel com barricadas e sobretudo causando disturbios...
A amalgama é grande, misturam-se insatisfeitos e agitadores, injustiçados e extremistas.
Nem tudo sao rosas e nem sempre é facil posicionarmo-nos. O medo é muito. Medo de errar, de ir longe de mais, de cair na alienaçao e na dinâmica das massas. Medo da violência também, medo de levar. Medo de ceder, de nao aguentar até ao fim.

A luta continua

7.3.06

Fac en Grève



Despertador as 6 da manha e metro em direçao a Boulogne. Com o bloqueio da faculdade votado em assembleia geral no dia anterior, a mobilizaçao historica começou desde manha no Institut Henri Piéron. Cadeiras, mesas, fotocopiadoras serviram para bloquear os acessos às salas de aulas e anfiteatros, barreiras humanas filtraram as entradas de professores, pesquisadores e pessoal administrativo autorizado a entrar na faculdade.
Ponto alto do dia, nova assembleia geral às 11 horas: depois de debate aceso e intervençoes calorosas de estudantes e professores, novo voto. Foi votada por curta maioria a continuaçao do bloqueio para o dia de quarta-feira.
Depois disso grande parte dos estudantes partiram para a grande manifestaçao organizada hoje em République, enquanto os restantes asseguraram o bloqueio e aproveitaram para por os pontos nos "i's" no que diz respeito à organizaçao do dia seguinte.
Amanha nova jornada de protesto prevista, com nova assembleia geral e o consequente voto para a manutençao do bloqueio (ou nao?).
Manter-vos-ei informados do desenrolar dos acontecimentos e espero brevemente fotografias para ilustrar este post.

2.3.06

It's a Wonderful Life

Estar em Paris à noite, num café em Odéon, lembrando frases, momentos, idades, os sonhos que são presente e o tempo que é futuro, encostado à rua, vendo pequenos flocos de chuva deslizarem pelo ar, e finalmente sair e ver nevar intensamente pela primeira vez, agarrar a neve como se agarra o desejo, experimentar o seu sabor e deixá-lo derreter no calor, tudo cada vez mais branco, como se nos esquecessemos do que é impuro, do que já morreu, de tudo o que é feio, e por fim viver sob um primeiro nevão, é ser, por esse eterno momento que fica no (nosso) cinema, James Stewart a redescobrir a sua vida e a de todos no filme mais bonito de Capra. Tudo se torna simples e inspirador, como a sua cor, como um pequeno texto.