29.4.06

Viagens na "minha" Terra

Vamos finalmente virar a pagina sobre este episodio do CPE e passar a assuntos mais triviais. Decidi fazer um curto relato das minhas ultimas viagens em terras francesas.
Em primeiro lugar a visita ao Château de Fontainebleau: num belo dia de sol parti com a Francesca da Gare de Lyon até Fontainebleau-Avon para uma visita das antigas residências de François Ier e Napoleao entre outros. Em relaçao ao castelo deixo as fotografias falar, valeu sem duvida a pena dar la um saltinho.



Segunda viagem, ida a Toulouse para visitar os companheiros emigras Luis e Buscardini, com direito a visita do resto da tropa (Alex, Mahado, Marco e Vivi). Dois curtos dias de festa, musica, saidas, politica, Berlusconi, Shangai....Memoravel. Mais uma vez conseguimos superar as expectativas.




Uma semana mais tarde, de volta ao Sud-Ouest gaulês com estagio de remo marcado para o complexo desportivo de Le Temple sur Lot. Oito horas de autocarro mais tarde, uma paisagem de sonho, campo e natureza com fartura e condiçoes ideais para a pratica do jogo do remo. O corte total com a Paris cinzenta e poluida dos ultimos tempos. 220 km em 6 dias, muitas dores musculares e o primeiro bronze da época balnear 2006!!Uma grande estreia, coroada com festa organizada pelo Athletic Club de Boulogne Billancourt!

8.4.06

E ainda o CPE...

E com grande agrado que vejo a chegada do Duarte. Este blog esta cada dia mais rico e mais vivo.
Passando ao assunto principal, hesitei bastante em responder a este texto do Francisco, por nao querer tornar este blog num fente-a-frente ou numa discussao entre dois. Mas ao mesmo tempo nao me desagrada a ideia de fazer desta pagina virtual um lugar de debate. Como tal, peço a vossa contribuiçao, caros leitores: que os nossos textos inspirem as vossas opinioes e comentarios.
Respondo também porque me parece que ouve uma certa incompreensao do meu ultimo texto. Nao conseguirei responder a tudo, porque as questoes sao muitas e diversas. Vou tentar cingir-me ao que acho mais importante.

Quando falo de vanguarda, nao me refiro à situaçao economica ou social da França, que, como o Francisco, considero pouco atraente. Falo sim da contestaçao e do movimento social e popular que se gerou e que considero como à frente do seu tempo. Falo de um despertar dos franceses para a sua situaçao e para a daqueles que os rodeiam. E se hà coisa a que a França e o seu povo nos habituaram foram a estes sinais de revolta. O intelectual hungaro Gàbor Kardos refere-se no Courrier International de esta semana a este fenomeno como a “Bastilha da globalizaçao”, imagem que considero bastante sugestiva.
Também nao duvido da crise existencial francesa, porque so uma grande crise poderia provocar manifestaçoes desta amplitude. Crise essa que resulta, em parte, de um problema de representatividade de que ja falei no ultimo texto ligado a um regime confuso e contraditorio de que falou o Duarte.
A média de vida de um Primeiro Ministro francês no Governo é de cerca de 2 anos, como se pode querer governar em 2 anos?! Todo o desenrolar deste processo demonstrou as incoerências e paradoxos deste regime e Villepin pode efectivamente ser criticado, mesmo pela esquerda. Ao faltar com a sua palavra e ao ir contra a lei de 2004 sobre o dialogo social, expô-se a todas as criticas. Nao têm agora qualquer legitimidade e por isso se vê atacado por todas as partes, inclusive pelo seu proprio partido. Mas tudo isto apenas foi possivél porque a V Républica o permite. Estamos perante um sistema em que existe um défice democratico, resultante do facto que o grupo que governa nao coincide com o grupo que sofre as consequências dessa governaçao. Talvez seja a Constituiçao que necessite de ser reformada...
Ao contrario do que dizes Francisco, nem todos os sistemas eleitorais funcionam como em França e parecem-me haver alternativas a este problema, digo eu, mas peço a opiniao de pessoas mais competentes no assunto (Duarte Graça?). E no que diz respeito aos dirigentes, também ha outras possibilidades. Cito apenas o exemplo da Dinamarca, onde a maior parte dos lideres politicos veem de uma carreira de sindicalistas.
Depois, convém procurar origens e respostas a esta crise. Nao basta afirmar que existe crise e que portanto é necessario reformar. E preciso também discutir o conceito de “reforma” e a resistência que oferecem os franceses a essa reforma: imagino que ninguém mais do que os proprios franceses,que sofrem esta crise no dia a dia, quer ver a situaçao do pais evoluir e melhorar. Mas uma reforma nao pode ser unilateral e nao pode ser instrumentalizada por aqueles que a promovem, nao deve estar ao serviço de uma classe social. A verdadeira reforma deve ser um concerto entre todos os actores sociais e a reflexao democratica, mesmo extra-parlamentar. Estamos face a uma contestaçao das reformas mas nao da Reforma, aquela que permitiria uma evoluçao dos principios fundamentais da sociedade e da Republica francesa. Se pelo menos as empresas francesas estivessem pelas ruas da amargura, seriam talvez aceitaveis reformas deste tipo, mas a verdade é que todas as empresas do CAC 40 registraram lucros recorde em 2005, o que acentua a clivagem entre classes sociais.
Passando ao dito cujo CPE: a percentagem de jovens no desemprego entre os 19 e os 26 anos é de 22,5% e nao de 30%. Analisemos com mais cuidado estes numeros. A faxa etaria dos 19-26 anos leva cerca de 3 meses para encontrar um emprego enquanto a faixa dos 45-55 anos leva mais do dobro do tempo para se livrar do mesmo desemprego. Ou seja, estes jovens nao parecem ter dificuldade em arranjar emprego. No entanto a sua taxa de desemprego é mais elevada do que a média nacional. Porque sera? Porque o emprego a que acedem é precario e temporario, o que faz com que voltem rapidamente ao desemprego. Se adicionarmos a isto a chegada constante de jovens ao mercado de trabalho, percebemos o numero elevado de desempregados. O CPE é sem duvida a soluçao mais criteriosa para esta problema...
Duvido enfim desse fatalismo e dessa falta de escolha que nos propoe.
Basta virarmos um bocadinho os olhos para o Norte da Europa e para as sociais-democracias da Escandinavia. Um modelo economico marcado por elevadas cargas fiscais e regimes de protecçao social muito avançados. Como é que isto é possivél neste mundo em que "reformas antecipadas, máquinas gigantescas de segurança social estão a falir com o Estado"??
Simplesmente porque esta protecçao social constitui um factor de competitividade nos regimes nordicos, uma vantagem e nao um encargo. Ha alternativas e ha outros modelos economicos viaveis.
E engraçado como se tronou "inevitavél" caminhar para este mundo liberalizado, ou como lhe chamam de forma eufemistica "aberto". Como se a situaçao actual tivesse aparecido, por divina vontade, como se nos tivesse sido imposta e que nao houvesse outra escolha. Mas convém sempre lembrar que a situçao que temos foi criada pelos dirigentes dos Estados modernos e pelas suas politicas, nao nasceu por geraçao espontanea. E é esta situaçao que temos de aceitar, porque nao ha outra escolha, porque "é assim".
A abertura de que falam é a abertura que falta. Mas abertura das mentes para combater o conformismo de dirigentes e politicos, muitas vezes de populaçoes também.
Este texto ja vai longo demais sem duvida. Acabo por nao responder a tudo, mas fica mais uma vez o meu ponto de vista.

“Comme le disait ma grand-mère il existe seulement deux familles dans le monde: ceux qui possèdent et ceux qui ne possèdent pas.”

Sancho Pança, Don Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes

Contributos para a discussão

Escrevo depois de ler os ultimos posts do Duarte e do Francisco.
Não entrarei tanto na discussão de eficácia do CPE mas sobre a "poeira debaixo do tapete" que esta questão parece revelar.
Comecemos pela questão da legitimidade e da representatividade levantada pelo Duarte.
De facto, Villepin nunca ganhou uma eleição, nunca foi eleito deputado, maire... nada! E chegou a primeiro-ministro. É no mínimo estranho, Francisco! Sabemos que foi escolhido pela influência que tem junto da família Chirac (Bernardette deve-lhe uns favores a propósito de um terreno no Porte Autonome de Paris) conquistada nos anos em que foi secretário-geral do Eliseu. Eu ponho o problema desta maneira: a Va República é um sistema constitucional complicadíssimo, absurdo diria mesmo. Julgo que nunca houve um governo que tivesse durado uma legislatura. Mas é o sistema vigente em França e que ninguém parece contestar. Ora, se aceitamos a V República, aceitamos também o governo que através desse sistema vier a ser formado. E se Villepin se tornou primeiro-ministro foi para governar e - bem ou mal neste ponto não interessa - está a governar. É inaceitável que a esquerda venha, quando os acontecimentos se viram contra ela, por em causa a legitimidade de Villepin.
Depois levanta-se a questão de bloqueio das universidades. Na minha opinião é também inaceitável e anti-democrático. É anti-democrático quer material quer formalmente. Não me parece lícito impedir alguém de trabalhar ( ir às aulas é o trabalho de um estudante). Se um professor quiser fazer greve e não dar uma aula, aí sim!, está no seu direito; se um estudante quiser faltar a aulas e ir manifestar-se também está no seu direito ( e não deve ser prejudicado por isso, nomeadamente em termos de número de faltas); mas negar a todos os outros alunos o direito-a-não-se-manifestar-desta-vez é claramente condenável. E o argumento de que o Governo e o Parlamento não são um retrato sociologico da França (remeto para o que escrevi acima) não colhe. Se somos democratas, somos democratas sempre e garantimos o direito a concordar ou discodar, a manifestar ou não manifestar sempre! E a Universidade, como espaço de todos os estudantes e todos os professores não pode ser uma arma de arremesso politico ainda que - e isso indiscutivelmente! - o bloqueio tenha uma força política brutal.
Quanto à questão de forma: eu estive na Assembleia Geral de Alunos de Nanterre que decretou o bloqueio da Universidade. Qualquer semelhança com um circo romano é pura coincidência (um ligeiro sorriso aparece-me agora no canto da boca...). Um anfiteatro "à pinha", de certeza, 1500/1800 pessoas, a votar de braço no ar, com uma tribuna claramente pró-bloqueio, sem controlar se os braços que se levantam são de estudantes de Nanterre ou não, deixa levantar todas as suspeitas sobre a legitimidade democrática da decisão. Mas, sejamos claros, isso não é uma preocupação de quem estava naquela tribuna nem de quem atrás deles se escondia.
Mudando de questão, falemos do modelo social francês. O Nouvel Observateur da semana passada trazia dados muito interessantes: em 30 anos a população aumentou, envelheceu também, os jovens têm mais formação mas também mais desemprego, vivem mais tempo em casa dos pais e casam-se menos. Até aqui nada de novo. Até que... pela primeira vez na história de França as reformas são mais elevadas do que os salários de quem paga essas reformas. É insustentável...
Eu não sou um liberal (como o Francisco?). Mas não ver que esse caminho, com a população a continuar a envelhecer, continuará a condenar a França -e a Europa em geral porque o modelo acaba por ser mais ou menos o mesmo - é continuar a asfixiar a população activa até ao ponto em que for garantido que não respira mesmo. E depois? O Estado abre falência?
Uma última nota a propósito da "solidariedade na banlieu". Francisco, as manifestações estão cheias de casseurs que não são estudantes nem sindicalistas. É gente da banlieu que em Novembro não descarregou a raiva toda e que continua à espera de motivos para gritar - como o faz - "Sarko, nique ta mére!". Pode dizer-se que não é gente politizada, que não está nas manifestações por causa do CPE mas para continuar com acertos de contas, mas a verdade é que está presente. E é perigosa.
A discussão segue dentro de momentos.
Um abraço.

Junto-me à festa!

A 7 de setembro cheguei a Paris.
A 10 fiquei com as malas no meio da rua e conheci o Duarte na paragem do 21 Bertholet-Vaucquelin.
O João Maria e o Fre chegaram a 11.
Dias depois conheci o Francisco num animado serão de Paris.
A 24 mudei-me para a Rue Notre Dame de Bonne Nouvelle.
Depois, esta aventura entrou em velocidade cruzeiro: o italiano como constante do meu dia-a-dia (tributo merecido ao Luca, à Vale e à Francesca), a banheira famosa, o gelo nessa banheira, a Universidade, as festas, os museus, o Luis e o Frederico, as médicas, a Cláudia, aprender francês...
Há uns tempos, o Duarte convidou-me para o blog. Por uma série de dificuldades logísticas ainda não tinha participado.
Tentarei participar nas discussões e partilhar a minha experiência. Paris-paisagem-interior e Paris-espaço-físico.
Um agradecimento especial ao Duarte pela amizade antes de sermos amigos, pelos jantares, pelas discussões ( quantas vezes "sans issue"!), por este convite, por estes tempos que farão sempre parte daquilo que viermos a ser. Seja o que for que viermos a ser.

3.4.06

Ainda o CPE

Caro Duarte,
Antes de mais, obrigado pela resposta - acho o assunto interessantíssimo, e envolve cada um de nós, dentro das suas maneiras diferentes. Como seria de esperar, isto para quem leu os dois textos, discordo bastante de algumas coisas que escreveste. Espero conseguir demonstrar cada ponto de maneira eficiente.
Ao contrário do que tu achas, não se trata apenas da imprensa anglo-saxónica a achar que algo se passa com a França. Pelo pouco tempo que levo da minha estadia em Paris, começo a perceber que o sentimento nacional se está a aporar de algumas dúvidas, há quem ache mesmo, dentro dos círculos jornalísticos franceses, que o país está numa espécie de crise existencial. Não há um dia em que não abra um jornal e não surjam entrevistas em série a aprofundar cada vez mais essa questão.
Tirando opiniões de carácter ideológico (capitalismos, etc), às quais já lá vamos, há uma coisa em que discordo absolutamente contigo - trata-se do papel que a França está a tomar, e porventura sempre tomou, dentro da União Europeia. E trata-se de algo que se pode definir por muita coisa, excepto "vanguarda".
A França é um país obviamente essencial à Europa, isso é um facto absolutamente inevitável. Mas a sua visão do continente está perfeitamente desenquadrada com o que o resto dos países europeus, excepto os satélites belgas e luxemburgueses, vêem na defesa dos seus interesses. E aqui não são interesses capitalistas - são interesses vitais para a condução positiva das políticas da Europa. Um mercado único aberto, e não fechado (o que não faz sentido), não só em relação aos novos mercados europeus e os novos membros de Leste, como as outras potências, velhas e novas - EUA, Brasil, Índia e China. Se a Europa se fechar, como a França defende, continuar em caminhos separados e a uma velocidade unicamente comandada por um país, vamos todos sofrer com isso. Iremos perder competitividade, e neste momento, sem economia, nem sonho para onde é que a Europa se poderia virar.
Por que sejamos realistas - a França sempre tomou a Europa como uma luta de poder, o que em si é normal, mas foi sempre feroz, e tentou sempre virar o rumo das coisas para o seu lado e a seu proveito, algo com o qual ainda pagamos em certas coisas. Falo, por exemplo, de um programa como a PAC, que absorve cerca de 45% do orçamento comunitário, de querer tornar a Europa num clube exclusivamente dominado pelo chamado "eixo franco-alemão" (curiosamente, esses dois países encontram-se abraçados a situações socio-económicas algo complicadas), contra uma Grã-Bretanha invasora, e mesmo novos países membros mais virados "para fora" do que "cá dentro" (leia-se EUA). E por que razão? Exactamente por que essas mesmas novas democracias estiveram anos sob um regime socialista totalitário que lhes roubou qualquer prosperidade - o que querem agora, e com toda a razão, é progresso, paz, bem-estar, e sobretudo abertura.
E quando dizia que a França, em termos europeus, se encontra numa esquerda ferozmente proteccionista, é por essa mesma razão, por que quer proteger a "sua" Europa. Mas essa Europa já não existe. Já não são 6 ou 12 países, já não é uma Europa a precisar de proteccionismo económico e social devido à sua situação dramática de pós-guerra, já não é uma Europa que tem a obrigação de dar emprego garantido para a vida a toda a gente, por uma simples razão de sobrevivência das suas famílias. Quando falas de "direitos adquiridos ao longo de anos de lutas sociais" é isso mesmo - reformas antecipadas, máquinas gigantescas de segurança social que estão a falir com o Estado, populações inteiras a trabalharem dentro do funcionalismo público, sem maiores perspectivas de futuro (por que simplesmente não era possível). Mas esses tempos já acabaram. Qualquer analista económico isento poderá garantir-te o seguinte : continua-se por este caminho desadaptado à realidade dos nossos tempos, e o Estado vai à falência. Este não pode continuar a pagar tudo e a funcionar como garante de bem-estar para todos durante muito mais tempo - é insustentável. Por isso está na hora da reforma, que até a França já entendeu e está a querer tomar, por muito que desagrade aos manifestantes.
E na meritocracia, existe como dizes igualdade de oportunidades - mas não podem existir privilégios. Faz algum sentido hoje em dia uma pessoa sair da universidade, e saber que se entrar na administração pública, tem um emprego garantido até aos 65, mais cedo até se cumprir X anos de serviço, e fica a receber o seu último salário à custa de todos os outros empregadores? Tudo isto torna uma situação insustentável para qualquer sociedade, por muito solidários que queiramos ser, nenhuma máquina ou programa aguenta isto, nem que se matem todos a trabalhar.
Assim, o que se propõe no caso do CPE, é uma abertura do mercado aos mais jovens, e que estão agora a começar a trabalhar, a poder entrar de imediato numa série de empresas (que em França, não os exploram por que simplesmente não os querem contratar), a um regime experimental de (agora) um ano. Se o novo empregado tiver mérito, o que a menos que seja incompetente, desajeitado, ou não tenha feito uma boa formação, não terá, entrará depois num regime profissional mais sólido, ao mesmo tempo com maior experiência. E se alguém à frente dele consegue o emprego por que tem melhor currículo, não achas que isso seja natural? Cada um trabalha segundo as suas ambições, e cada empregador quer o melhor para a sua empresa - trata-se de abrir todo um mercado a uma camada da sociedade cujo desemprego está perto dos 30%, trazer as empresas e os empregadores mais próximos dos jovens formados, e tentar acabar com a tentação destes de irem todos parar aos postos públicos do Estado (que 75% dos jovens afirmam ambicionar - e isto é um sintoma de falta de perspectivas e de ambição profissional). No fundo, é algo que pode vir a ser importante para dinamizar o mercado, recheá-lo de novas (e jovens) pessoas e abrir várias perspectivas.
Em relação à tua crítica ao sistema de representatividade democrática, o que sugeres? Já nos seguimos por este sistema desde que se acabaram com os regimes totalitários na Europa Ocidental (até Gorbachov percebeu que aquilo não funcionava nos lados dele), e Churchill já dizia que "a democracia é o pior dos regimes, com excepção de todos os outros". Se não achas que o partido mais votado numas eleições deva ter maioria, pela junção das percentagens, numa assembleia parlamentar, sugeres deixar um espaço de lugares vazios representativos dos 40% de abstencionistas no parlamento para guiar os destinos do país? O Primeiro-Ministro francês talvez nunca tenha ganho uma eleição, mas o Presidente que o apontou viu esse seu direito delegado por 82% dos votantes nas eleições presidenciais. Trata-se de um sistema - no caso francês é um semi-presidencialismo forte, noutros países democráticos tens outros, mas no fundo não diferem assim tanto. E em relação à classe das escolas do Estado de administração e de ciência política às quais apontas o dedo, de onde sai a classe política francesa, preferias que esta seguisse outra formação para comandar o país? Como podes afirmar que não têm contacto com a realidade social francesa? Querias que viessem directamente de camadas operárias? O povo não são só "os trabalhadores", e a minoria que governa é soberana na sua governação por que o seu poder vem da maioria.
Para além disso, não é porque 2 milhões e picos de manifestantes em França contra uma emenda legislativa saíram à rua que isso signifique que a maioria do povo francês esteja contra Villepin ou o CPE. Muito provavelmente, está sim totalmente insatisfeita não pela lei, mas pelo modo como este conduziu todo o processo.
Por fim, queria ainda dizer que acho que colocar a questão em termos de capitalismo ou não-capitalismo (socialismo?) é algo redutor. Por que hoje em dia, já ninguém fala de "capitalismo". Do que se fala, é da abertura de mercados que se encontram fechados, de abrir oportunidades a empresas e empregados (também poderás um dia, espero eu, circular livremente). Por que a abertura e o chamado "demónio" da globalização não é uma ameaça - é, mais do que uma oportunidade, algo de inevitável e que já está a acontecer. E o que se passa é que a França está a tentar rejeitá-la por não ser, mais uma vez, "sua", e está a sofrer gravemente com isso (e poder-se-ia começar um debate sobre as banlieues a partir disto). E ao contrário do que tu achas, não penso que as greves operárias, estudantis, ou metalúrgicas sejam apenas uma "ante-estreia" da luta ideológica (por que sejamos francos - conheces algum metalúrgico de centro-direita?), o que prevejo que aconteça, mais tarde ou mais cedo, é a sociedade francesa render-se aos factos, à realidade que a rodeia (começando pela Europa, acabando noutras paragens), e até às estatísticas. Podes achar que a França está na vanguarda do seu modelo social, mas achas que os "novos franceses" dos arredores de Paris pensam o mesmo que tu? Duvido que se sintam como cidadãos de uma sociedade na vanguarda - aberta social e economicamente, multicultural, e com igualdade de oportunidades. Aposto que a esmagadora maioria deles desespera por algo como o CPE. E para sustentar essa minha ideia, basta ver que ainda não surgiu qualquer incidente de "solidariedade" nas banlieues, como a generalidade da imprensa francesa previa.
Num mundo aberto, todos têm cada vez mais acesso e direito à prosperidade e ao bem-estar. E por que nem sempre isso acontece, nunca como hoje em dia se discutiu tanto a questão e o melhor modo de fazer isso para o proveito de toda a gente, com justiça.
Resta-me dizer que nunca escrevi tanto sobre economia, e quanto aos disparates, espero as devidas correcções.

1.4.06

Nao posso deixar de reagir a esta analise do Francisco,e vou assim - também eu - dar a minha visao dos acontecimentos dos ultimos meses.
Em primeiro lugar, eu nao afirmaria com tanta certeza que os 2 milhoes de manifestantes, ou até, se quisermos generalizar estes acontecimentos a uma crise social e politica nacional, os 60 milhoes de franceses, estao enganados. Quanto mais nao seja por prudência ou humildade.
Em segundo lugar, nao se trata "apenas" de uma emenda legislativa. Trata-se a meu ver de uma reacçao à politica dos governos franceses dos ultimos anos, reacçao essa que ja apareceu aquando do "Nao" ao referendo constitucional, das manifestaçoes contra a loi Fillon, nas revoltas na banlieue e agora na contestataçao anti-CPE. Politica essa que segue a tendência global para a liberalizaçao e precarizaçao do emprego. Nesse aspecto, penso, ao contrario da imprensa (nomeadamente anlgo-saxa), que a França nao é um pais atrasado ou reaccionario face ao panorama europeu, mas sim um pais na vanguarda. Vanguarda da contestaçao ao novo capitalismo, que ja começou com as greves em Inglaterra do sector publico, dos médicos e do sector metalurgico na Alemanha... e que vai tender a generalizar-se.Estamos apenas a assistir a uma ante-estreia.
Parece-me hipocrita apresentar o CPE como a unica e inevitavel soluçao para o problema do desemprego dos jovens (que na realidade pode até ser causado pela tal precaridade que o CPE visa institucionalizar) quando se pode atacar a exploraçao dos estagiarios, o problema do sub-emprego nas empresas, da falta de formaçao...
E porquê chamar privilégios aquilo que sao direitos, adquiridos ao longo de anos de lutas sociais? Os verdadeiros privilegiados encontram-se noutros sitios...
Nao me parece que se ponha em causa uma meritocracia, eu pelo menos nao ponho. Simplesmente essa meritocracia nao existe sem igualdade de oportunidades, é tao simples quanto isso. So se podem avaliar individuos em igualdade de circunstâncias(nao ha mérito nenhum em ganhar uma corrida a um coxo!!). E sabemos bem que essa igualdade à partida nao existe hoje.
Parece-me também que muita gente esta chocada com a dimensao da contestaçao e dos protestos. No entanto nao se interrogam sobre o "porquê" da dimensao de tais protestos, tomando por pressuposto que as pessoas que manifestam o fazem de forma gratuita e que nao lhes custa perder dias de salario. Nao pensam que talvez estas manifestaçoes apareçam como a unica forma de ser ouvido, devido a uma falta de representaçao pelos seus politicos que sentem os franceses. Eu nao hesitaria em manifestar se soubesse que o partido no governo têm 65% das vozes no Parlamento tendo obtido apenas 35% das vozes a nivel nacional, sem duvida devido a um sistema eleitoral deficiente. Se soubesse que o meu Primeiro Ministro nunca ganhou uma eleiçao. Que os deputados sao dinossauros politicos assim como o Presidente que faz agora 43 anos de politica. Dinossauros saidos directamente das escolas de admninistraçao do estado (Sciences Po e depois ENA), sem contacto com a realidade social francesa. Se soubesse que os partidos de oposiçao foram privados de debate na assembleia e que os sindicatos nao foram consultados para a adopçao da loi sur l'égalité des chances. Tudo isto contribui para que um pequena minoria governe sem o povo, o que para mim, nao representa nenhum ideal de democracia.
Nao se trata de incompreensao, mas sim de compreensao. Compreensao do que implicam estas reformas e das suas consequências para os trabalhadores, das suas vantagens para o patronato. Compreensao da visao unica que nos tentam incutir do mundo e da sociedade. Visao essa que aponta o capitalismo como unica saida viavél, unica opçao "realista". E quando se rejeita tal conformismo passa-se a ser intitulado de romântico, utopico, irrealista e irresponsavel. Esse realismo que hoje em dia nao é mais do que fatalismo, que nos obriga a acreditar que a realidade nao pode ser transformada, apenas repetida.

"A realidade é um desafio.
Não estamos condenados a escolher entre o mesmo e a mesma coisa.
A realidade é real porque nos convida a transformá-la e não porque nos obrigue a aceitá-la. Ela abre espaços de liberdade e não nos encerra necessariamente nas cadeias da fatalidade."

Eduardo Galeano
Alguém sabe o que é o CPE?
Depois de tantas manifestações, de ter visto bloqueios de universidades, slogans, paradas, e até concertos de rua, parece-me que, para um jovem europeu estrangeiro (mas europeu), toda a gente está a passar ao lado do verdadeiro problema em França. Posso estar errado, mas essa é a minha impressão.
Não deixa de ser curioso como se gerou, naquele país, uma crise social e política desta dimensão à volta de uma simples emenda legislativa, quanto mais uma revisão geral do código de trabalho. Mas muita coisa se pode dizer sobre isto tudo, começando na rejeição da Constituição Europeia pelo povo francês, passando pelo período de violência nas banlieues, até a este preciso momento.
O que me parece estar a acontecer em França neste momento é uma mistura de frustração com incompreensão da nova realidade do país dentro do seu renovado contexto europeu e até mundial, tanto politicamente como economicamente. A França perdeu influência, perdeu até poder, e mesmo depois de De Gaulle e no ano de 2006, vê mais os outros grandes países ocidentais como uma ameaça do que uma oportunidade.
Isto é claramente um sintoma de um país desajustado do panorama político actual. Um país que tem medo do que a Europa tem para oferecer (porque não é a sua Europa, e não se pode ser o centro de 25 países), que não sabe como agir dentro do seu multiculturalismo não assumido, e que quer a tudo o custo manter vivo o sonho da sua República de valores universais, sem perceber que isso se pode tornar no seu maior perigo.
Não digo que os valores da França ou o seu papel histórico estão em causa - mas querer manter o seu "modelo social" numa Europa em que me parece que ninguém está interessado nele pode vir a ser dramático, tanto para o próprio país como para o continente. O que os jovens franceses estão a pedir nas ruas desde que a crise começou são os privilégios que os seus pais tiveram quando começaram a sua vida, e que curiosamente são de certa maneira aqueles contra os quais lutaram no Maio de 68.
O CPE muito provavelmente não vai resolver o problema do desemprego em França, não porque será totalmente ineficaz, mas sim porque não pode estar sozinho se alguma vez se quiser mesmo resolver a questão. Tal como disse, é apenas uma emenda. Mas o que de bom pode trazer, e contra isso é que estão todos a berrar na rua, é uma palavra que vem colada às reformas económicas que virão mais tarde ou mais cedo (até em França) em todas as economias da Europa, sob pena de ruírem - a meritocracia. E se hoje em dia estamos em crise, não é porque se fazem propostas como o CPE - é porque andámos a pagar durante anos demais um modelo vindo do pós-guerra baseado em pressupostos e privilégios que hoje em dia já não fazem sentido, como a impossibilidade de se despedirem funcionários públicos, entre outras coisas.
Por isso, ou a França, que curiosamente em termos europeus se coloca ideologicamente numa esquerda ferozmente proteccionista, adapta-se de facto à realidade dos tempos, tal como outros países europeus (incluindo o nosso), ou os verdadeiros protestos e a verdadeira crise virão mais tarde. Porque nem o Estado tem dinheiro para pagar todas as pré-reformas que se concedem, nem os futuros funcionários vão querer trabalhar até aos 75 anos para aguentar tudo o que se permitiu. La précarité não é o CPE que a vai criar, ela já existe e é bem real.
E como nota final, façam uma sondagem junto dos alunos universitários para saber quantos deles é que querem aulas, e quantos querem as portas fechadas. Não deixa de ser algo chocante saber que foram 300 alunos a fechar uma instituição de milhares. E se as forças de intervenção estão lá agora a cercar o edifício e a garantir a sua segurança, não é porque a Sorbonne é dos étudiants, como gritam, é porque é do Estado. E é urgente recomeçar as aulas.
Com as futuras eleições presidenciais, pode-se vir a fechar um ciclo em França, depois de um par de anos no mínimo traumático. Pode ser que as pessoas acordem, e aqui não está nenhum apelo ideológico ao voto - espera-se que o acordar vá da esquerda à direita. Como português, penso no futuro da Europa, porque mesmo se a França pede o que nunca conseguirá, não deixa de ser um país central na construção europeia. Só espero que caminhe para a construção global, correcta e realista.

Le Président de la République, M. Jacques Chirac



Bandeira Bleu, Blanc, Rouge e Marseillaise. Jacques Chirac sobre fundo do jardim do Palais de l'Elysée. O Président volta a adoptar o look "lunettes".
O Presidente falou à naçao. Em comunicado oficial, Jacques Chirac afirmou, como Dominique de Villepin, que a lei votada têm de ser aplicada. Que està à escuta dos jovens e dos manifestantes. Que é preciso dialogar. Que a Républica e os principios republicanos têm de ser respeitados.
Jacques Chirac promulgou a "loi sur l'égalité des chances", depois da intervençao do Conselho Constitucional. No entanto, pediu ao governo duas alteraçoes: a reduçao do periodo de experiência de 2 para 1 ano e o direito do empregado de saber o motivo do seu despedimento.
Jacques Chirac disse o mesmo que Dominique de Villepin. Jacques Chirac, quanto a mim, nao disse grande coisa (reservo o meu julgamento, pois no meio de tanto palavreado, nao tenho a certeza de ter compreendido a essência da declaraçao). No entanto trouxe mudança, novidade à questao do CPE. Resta saber se nao estara a atirar mais achas para a fogueira...
Eu espero para ver as reacçoes e espero ansiosamente por nova declaraçao do Super-Menteur.

"Vive la République! Vive la France!"