3.4.06

Ainda o CPE

Caro Duarte,
Antes de mais, obrigado pela resposta - acho o assunto interessantíssimo, e envolve cada um de nós, dentro das suas maneiras diferentes. Como seria de esperar, isto para quem leu os dois textos, discordo bastante de algumas coisas que escreveste. Espero conseguir demonstrar cada ponto de maneira eficiente.
Ao contrário do que tu achas, não se trata apenas da imprensa anglo-saxónica a achar que algo se passa com a França. Pelo pouco tempo que levo da minha estadia em Paris, começo a perceber que o sentimento nacional se está a aporar de algumas dúvidas, há quem ache mesmo, dentro dos círculos jornalísticos franceses, que o país está numa espécie de crise existencial. Não há um dia em que não abra um jornal e não surjam entrevistas em série a aprofundar cada vez mais essa questão.
Tirando opiniões de carácter ideológico (capitalismos, etc), às quais já lá vamos, há uma coisa em que discordo absolutamente contigo - trata-se do papel que a França está a tomar, e porventura sempre tomou, dentro da União Europeia. E trata-se de algo que se pode definir por muita coisa, excepto "vanguarda".
A França é um país obviamente essencial à Europa, isso é um facto absolutamente inevitável. Mas a sua visão do continente está perfeitamente desenquadrada com o que o resto dos países europeus, excepto os satélites belgas e luxemburgueses, vêem na defesa dos seus interesses. E aqui não são interesses capitalistas - são interesses vitais para a condução positiva das políticas da Europa. Um mercado único aberto, e não fechado (o que não faz sentido), não só em relação aos novos mercados europeus e os novos membros de Leste, como as outras potências, velhas e novas - EUA, Brasil, Índia e China. Se a Europa se fechar, como a França defende, continuar em caminhos separados e a uma velocidade unicamente comandada por um país, vamos todos sofrer com isso. Iremos perder competitividade, e neste momento, sem economia, nem sonho para onde é que a Europa se poderia virar.
Por que sejamos realistas - a França sempre tomou a Europa como uma luta de poder, o que em si é normal, mas foi sempre feroz, e tentou sempre virar o rumo das coisas para o seu lado e a seu proveito, algo com o qual ainda pagamos em certas coisas. Falo, por exemplo, de um programa como a PAC, que absorve cerca de 45% do orçamento comunitário, de querer tornar a Europa num clube exclusivamente dominado pelo chamado "eixo franco-alemão" (curiosamente, esses dois países encontram-se abraçados a situações socio-económicas algo complicadas), contra uma Grã-Bretanha invasora, e mesmo novos países membros mais virados "para fora" do que "cá dentro" (leia-se EUA). E por que razão? Exactamente por que essas mesmas novas democracias estiveram anos sob um regime socialista totalitário que lhes roubou qualquer prosperidade - o que querem agora, e com toda a razão, é progresso, paz, bem-estar, e sobretudo abertura.
E quando dizia que a França, em termos europeus, se encontra numa esquerda ferozmente proteccionista, é por essa mesma razão, por que quer proteger a "sua" Europa. Mas essa Europa já não existe. Já não são 6 ou 12 países, já não é uma Europa a precisar de proteccionismo económico e social devido à sua situação dramática de pós-guerra, já não é uma Europa que tem a obrigação de dar emprego garantido para a vida a toda a gente, por uma simples razão de sobrevivência das suas famílias. Quando falas de "direitos adquiridos ao longo de anos de lutas sociais" é isso mesmo - reformas antecipadas, máquinas gigantescas de segurança social que estão a falir com o Estado, populações inteiras a trabalharem dentro do funcionalismo público, sem maiores perspectivas de futuro (por que simplesmente não era possível). Mas esses tempos já acabaram. Qualquer analista económico isento poderá garantir-te o seguinte : continua-se por este caminho desadaptado à realidade dos nossos tempos, e o Estado vai à falência. Este não pode continuar a pagar tudo e a funcionar como garante de bem-estar para todos durante muito mais tempo - é insustentável. Por isso está na hora da reforma, que até a França já entendeu e está a querer tomar, por muito que desagrade aos manifestantes.
E na meritocracia, existe como dizes igualdade de oportunidades - mas não podem existir privilégios. Faz algum sentido hoje em dia uma pessoa sair da universidade, e saber que se entrar na administração pública, tem um emprego garantido até aos 65, mais cedo até se cumprir X anos de serviço, e fica a receber o seu último salário à custa de todos os outros empregadores? Tudo isto torna uma situação insustentável para qualquer sociedade, por muito solidários que queiramos ser, nenhuma máquina ou programa aguenta isto, nem que se matem todos a trabalhar.
Assim, o que se propõe no caso do CPE, é uma abertura do mercado aos mais jovens, e que estão agora a começar a trabalhar, a poder entrar de imediato numa série de empresas (que em França, não os exploram por que simplesmente não os querem contratar), a um regime experimental de (agora) um ano. Se o novo empregado tiver mérito, o que a menos que seja incompetente, desajeitado, ou não tenha feito uma boa formação, não terá, entrará depois num regime profissional mais sólido, ao mesmo tempo com maior experiência. E se alguém à frente dele consegue o emprego por que tem melhor currículo, não achas que isso seja natural? Cada um trabalha segundo as suas ambições, e cada empregador quer o melhor para a sua empresa - trata-se de abrir todo um mercado a uma camada da sociedade cujo desemprego está perto dos 30%, trazer as empresas e os empregadores mais próximos dos jovens formados, e tentar acabar com a tentação destes de irem todos parar aos postos públicos do Estado (que 75% dos jovens afirmam ambicionar - e isto é um sintoma de falta de perspectivas e de ambição profissional). No fundo, é algo que pode vir a ser importante para dinamizar o mercado, recheá-lo de novas (e jovens) pessoas e abrir várias perspectivas.
Em relação à tua crítica ao sistema de representatividade democrática, o que sugeres? Já nos seguimos por este sistema desde que se acabaram com os regimes totalitários na Europa Ocidental (até Gorbachov percebeu que aquilo não funcionava nos lados dele), e Churchill já dizia que "a democracia é o pior dos regimes, com excepção de todos os outros". Se não achas que o partido mais votado numas eleições deva ter maioria, pela junção das percentagens, numa assembleia parlamentar, sugeres deixar um espaço de lugares vazios representativos dos 40% de abstencionistas no parlamento para guiar os destinos do país? O Primeiro-Ministro francês talvez nunca tenha ganho uma eleição, mas o Presidente que o apontou viu esse seu direito delegado por 82% dos votantes nas eleições presidenciais. Trata-se de um sistema - no caso francês é um semi-presidencialismo forte, noutros países democráticos tens outros, mas no fundo não diferem assim tanto. E em relação à classe das escolas do Estado de administração e de ciência política às quais apontas o dedo, de onde sai a classe política francesa, preferias que esta seguisse outra formação para comandar o país? Como podes afirmar que não têm contacto com a realidade social francesa? Querias que viessem directamente de camadas operárias? O povo não são só "os trabalhadores", e a minoria que governa é soberana na sua governação por que o seu poder vem da maioria.
Para além disso, não é porque 2 milhões e picos de manifestantes em França contra uma emenda legislativa saíram à rua que isso signifique que a maioria do povo francês esteja contra Villepin ou o CPE. Muito provavelmente, está sim totalmente insatisfeita não pela lei, mas pelo modo como este conduziu todo o processo.
Por fim, queria ainda dizer que acho que colocar a questão em termos de capitalismo ou não-capitalismo (socialismo?) é algo redutor. Por que hoje em dia, já ninguém fala de "capitalismo". Do que se fala, é da abertura de mercados que se encontram fechados, de abrir oportunidades a empresas e empregados (também poderás um dia, espero eu, circular livremente). Por que a abertura e o chamado "demónio" da globalização não é uma ameaça - é, mais do que uma oportunidade, algo de inevitável e que já está a acontecer. E o que se passa é que a França está a tentar rejeitá-la por não ser, mais uma vez, "sua", e está a sofrer gravemente com isso (e poder-se-ia começar um debate sobre as banlieues a partir disto). E ao contrário do que tu achas, não penso que as greves operárias, estudantis, ou metalúrgicas sejam apenas uma "ante-estreia" da luta ideológica (por que sejamos francos - conheces algum metalúrgico de centro-direita?), o que prevejo que aconteça, mais tarde ou mais cedo, é a sociedade francesa render-se aos factos, à realidade que a rodeia (começando pela Europa, acabando noutras paragens), e até às estatísticas. Podes achar que a França está na vanguarda do seu modelo social, mas achas que os "novos franceses" dos arredores de Paris pensam o mesmo que tu? Duvido que se sintam como cidadãos de uma sociedade na vanguarda - aberta social e economicamente, multicultural, e com igualdade de oportunidades. Aposto que a esmagadora maioria deles desespera por algo como o CPE. E para sustentar essa minha ideia, basta ver que ainda não surgiu qualquer incidente de "solidariedade" nas banlieues, como a generalidade da imprensa francesa previa.
Num mundo aberto, todos têm cada vez mais acesso e direito à prosperidade e ao bem-estar. E por que nem sempre isso acontece, nunca como hoje em dia se discutiu tanto a questão e o melhor modo de fazer isso para o proveito de toda a gente, com justiça.
Resta-me dizer que nunca escrevi tanto sobre economia, e quanto aos disparates, espero as devidas correcções.

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