1.4.06

Alguém sabe o que é o CPE?
Depois de tantas manifestações, de ter visto bloqueios de universidades, slogans, paradas, e até concertos de rua, parece-me que, para um jovem europeu estrangeiro (mas europeu), toda a gente está a passar ao lado do verdadeiro problema em França. Posso estar errado, mas essa é a minha impressão.
Não deixa de ser curioso como se gerou, naquele país, uma crise social e política desta dimensão à volta de uma simples emenda legislativa, quanto mais uma revisão geral do código de trabalho. Mas muita coisa se pode dizer sobre isto tudo, começando na rejeição da Constituição Europeia pelo povo francês, passando pelo período de violência nas banlieues, até a este preciso momento.
O que me parece estar a acontecer em França neste momento é uma mistura de frustração com incompreensão da nova realidade do país dentro do seu renovado contexto europeu e até mundial, tanto politicamente como economicamente. A França perdeu influência, perdeu até poder, e mesmo depois de De Gaulle e no ano de 2006, vê mais os outros grandes países ocidentais como uma ameaça do que uma oportunidade.
Isto é claramente um sintoma de um país desajustado do panorama político actual. Um país que tem medo do que a Europa tem para oferecer (porque não é a sua Europa, e não se pode ser o centro de 25 países), que não sabe como agir dentro do seu multiculturalismo não assumido, e que quer a tudo o custo manter vivo o sonho da sua República de valores universais, sem perceber que isso se pode tornar no seu maior perigo.
Não digo que os valores da França ou o seu papel histórico estão em causa - mas querer manter o seu "modelo social" numa Europa em que me parece que ninguém está interessado nele pode vir a ser dramático, tanto para o próprio país como para o continente. O que os jovens franceses estão a pedir nas ruas desde que a crise começou são os privilégios que os seus pais tiveram quando começaram a sua vida, e que curiosamente são de certa maneira aqueles contra os quais lutaram no Maio de 68.
O CPE muito provavelmente não vai resolver o problema do desemprego em França, não porque será totalmente ineficaz, mas sim porque não pode estar sozinho se alguma vez se quiser mesmo resolver a questão. Tal como disse, é apenas uma emenda. Mas o que de bom pode trazer, e contra isso é que estão todos a berrar na rua, é uma palavra que vem colada às reformas económicas que virão mais tarde ou mais cedo (até em França) em todas as economias da Europa, sob pena de ruírem - a meritocracia. E se hoje em dia estamos em crise, não é porque se fazem propostas como o CPE - é porque andámos a pagar durante anos demais um modelo vindo do pós-guerra baseado em pressupostos e privilégios que hoje em dia já não fazem sentido, como a impossibilidade de se despedirem funcionários públicos, entre outras coisas.
Por isso, ou a França, que curiosamente em termos europeus se coloca ideologicamente numa esquerda ferozmente proteccionista, adapta-se de facto à realidade dos tempos, tal como outros países europeus (incluindo o nosso), ou os verdadeiros protestos e a verdadeira crise virão mais tarde. Porque nem o Estado tem dinheiro para pagar todas as pré-reformas que se concedem, nem os futuros funcionários vão querer trabalhar até aos 75 anos para aguentar tudo o que se permitiu. La précarité não é o CPE que a vai criar, ela já existe e é bem real.
E como nota final, façam uma sondagem junto dos alunos universitários para saber quantos deles é que querem aulas, e quantos querem as portas fechadas. Não deixa de ser algo chocante saber que foram 300 alunos a fechar uma instituição de milhares. E se as forças de intervenção estão lá agora a cercar o edifício e a garantir a sua segurança, não é porque a Sorbonne é dos étudiants, como gritam, é porque é do Estado. E é urgente recomeçar as aulas.
Com as futuras eleições presidenciais, pode-se vir a fechar um ciclo em França, depois de um par de anos no mínimo traumático. Pode ser que as pessoas acordem, e aqui não está nenhum apelo ideológico ao voto - espera-se que o acordar vá da esquerda à direita. Como português, penso no futuro da Europa, porque mesmo se a França pede o que nunca conseguirá, não deixa de ser um país central na construção europeia. Só espero que caminhe para a construção global, correcta e realista.

1 commentaire:

Joao a dit…

Uma analise perspicaz e pertinente da evolução da sociedade francesa, que effectivamente continua a querer guardar privilegios( que hoje não mais sao possiveis) e a ter ainda mais.
Fiquei apenas um tanto desiludido quando chegas-te a "meritocracia" e nao havia um pequeno desenvolvimento acerca da importancia que é a evolução desta na sociedade Europeia occidental.
Fora isso, acho qe apanhas bem o que está acontecer na sociedade francesa, que resume-se a uma total negligencia da situação Socio-economica que hoje vive, e a uma ilusao de que a França ainda é aquela frança dos anos 60, que podia pemitir-se de ter as politicas de proteção social que tinha.
O CPE representa um passo importante ao abandono da politica socio-economica que hoje arduamente carrega. O CPE em si nao é uma "emenda" revolucionaria. Alias, é uma medida economica sem grandes repercursões na baixa do desempregoe e com uma influencia quasi-nula no cresciemento economico. Mas os franceses recusam-se a acompanhar a evoluçao das sociedades (tal como o francisco disse, o NAO ao referendo é apenas mais um exemplo) e recusam o CPE pois este é um retorno a "précarité", mas tambem é um retorno a "réalité". E podem ter certeza que a coisa vai ficar bem mais "précaire" se o governo frances nao enfrenta o povo e adopta medidas mais duras para conseguir aguentar a crise que hoje atravessa.
O grande desafio que hoje vive o governo frances é delicadamente aguentar-se entre a faca e a navalha, entre a politica social que tem - e - a politica social que pode pagar.