8.4.06

Contributos para a discussão

Escrevo depois de ler os ultimos posts do Duarte e do Francisco.
Não entrarei tanto na discussão de eficácia do CPE mas sobre a "poeira debaixo do tapete" que esta questão parece revelar.
Comecemos pela questão da legitimidade e da representatividade levantada pelo Duarte.
De facto, Villepin nunca ganhou uma eleição, nunca foi eleito deputado, maire... nada! E chegou a primeiro-ministro. É no mínimo estranho, Francisco! Sabemos que foi escolhido pela influência que tem junto da família Chirac (Bernardette deve-lhe uns favores a propósito de um terreno no Porte Autonome de Paris) conquistada nos anos em que foi secretário-geral do Eliseu. Eu ponho o problema desta maneira: a Va República é um sistema constitucional complicadíssimo, absurdo diria mesmo. Julgo que nunca houve um governo que tivesse durado uma legislatura. Mas é o sistema vigente em França e que ninguém parece contestar. Ora, se aceitamos a V República, aceitamos também o governo que através desse sistema vier a ser formado. E se Villepin se tornou primeiro-ministro foi para governar e - bem ou mal neste ponto não interessa - está a governar. É inaceitável que a esquerda venha, quando os acontecimentos se viram contra ela, por em causa a legitimidade de Villepin.
Depois levanta-se a questão de bloqueio das universidades. Na minha opinião é também inaceitável e anti-democrático. É anti-democrático quer material quer formalmente. Não me parece lícito impedir alguém de trabalhar ( ir às aulas é o trabalho de um estudante). Se um professor quiser fazer greve e não dar uma aula, aí sim!, está no seu direito; se um estudante quiser faltar a aulas e ir manifestar-se também está no seu direito ( e não deve ser prejudicado por isso, nomeadamente em termos de número de faltas); mas negar a todos os outros alunos o direito-a-não-se-manifestar-desta-vez é claramente condenável. E o argumento de que o Governo e o Parlamento não são um retrato sociologico da França (remeto para o que escrevi acima) não colhe. Se somos democratas, somos democratas sempre e garantimos o direito a concordar ou discodar, a manifestar ou não manifestar sempre! E a Universidade, como espaço de todos os estudantes e todos os professores não pode ser uma arma de arremesso politico ainda que - e isso indiscutivelmente! - o bloqueio tenha uma força política brutal.
Quanto à questão de forma: eu estive na Assembleia Geral de Alunos de Nanterre que decretou o bloqueio da Universidade. Qualquer semelhança com um circo romano é pura coincidência (um ligeiro sorriso aparece-me agora no canto da boca...). Um anfiteatro "à pinha", de certeza, 1500/1800 pessoas, a votar de braço no ar, com uma tribuna claramente pró-bloqueio, sem controlar se os braços que se levantam são de estudantes de Nanterre ou não, deixa levantar todas as suspeitas sobre a legitimidade democrática da decisão. Mas, sejamos claros, isso não é uma preocupação de quem estava naquela tribuna nem de quem atrás deles se escondia.
Mudando de questão, falemos do modelo social francês. O Nouvel Observateur da semana passada trazia dados muito interessantes: em 30 anos a população aumentou, envelheceu também, os jovens têm mais formação mas também mais desemprego, vivem mais tempo em casa dos pais e casam-se menos. Até aqui nada de novo. Até que... pela primeira vez na história de França as reformas são mais elevadas do que os salários de quem paga essas reformas. É insustentável...
Eu não sou um liberal (como o Francisco?). Mas não ver que esse caminho, com a população a continuar a envelhecer, continuará a condenar a França -e a Europa em geral porque o modelo acaba por ser mais ou menos o mesmo - é continuar a asfixiar a população activa até ao ponto em que for garantido que não respira mesmo. E depois? O Estado abre falência?
Uma última nota a propósito da "solidariedade na banlieu". Francisco, as manifestações estão cheias de casseurs que não são estudantes nem sindicalistas. É gente da banlieu que em Novembro não descarregou a raiva toda e que continua à espera de motivos para gritar - como o faz - "Sarko, nique ta mére!". Pode dizer-se que não é gente politizada, que não está nas manifestações por causa do CPE mas para continuar com acertos de contas, mas a verdade é que está presente. E é perigosa.
A discussão segue dentro de momentos.
Um abraço.

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