8.4.06

E ainda o CPE...

E com grande agrado que vejo a chegada do Duarte. Este blog esta cada dia mais rico e mais vivo.
Passando ao assunto principal, hesitei bastante em responder a este texto do Francisco, por nao querer tornar este blog num fente-a-frente ou numa discussao entre dois. Mas ao mesmo tempo nao me desagrada a ideia de fazer desta pagina virtual um lugar de debate. Como tal, peço a vossa contribuiçao, caros leitores: que os nossos textos inspirem as vossas opinioes e comentarios.
Respondo também porque me parece que ouve uma certa incompreensao do meu ultimo texto. Nao conseguirei responder a tudo, porque as questoes sao muitas e diversas. Vou tentar cingir-me ao que acho mais importante.

Quando falo de vanguarda, nao me refiro à situaçao economica ou social da França, que, como o Francisco, considero pouco atraente. Falo sim da contestaçao e do movimento social e popular que se gerou e que considero como à frente do seu tempo. Falo de um despertar dos franceses para a sua situaçao e para a daqueles que os rodeiam. E se hà coisa a que a França e o seu povo nos habituaram foram a estes sinais de revolta. O intelectual hungaro Gàbor Kardos refere-se no Courrier International de esta semana a este fenomeno como a “Bastilha da globalizaçao”, imagem que considero bastante sugestiva.
Também nao duvido da crise existencial francesa, porque so uma grande crise poderia provocar manifestaçoes desta amplitude. Crise essa que resulta, em parte, de um problema de representatividade de que ja falei no ultimo texto ligado a um regime confuso e contraditorio de que falou o Duarte.
A média de vida de um Primeiro Ministro francês no Governo é de cerca de 2 anos, como se pode querer governar em 2 anos?! Todo o desenrolar deste processo demonstrou as incoerências e paradoxos deste regime e Villepin pode efectivamente ser criticado, mesmo pela esquerda. Ao faltar com a sua palavra e ao ir contra a lei de 2004 sobre o dialogo social, expô-se a todas as criticas. Nao têm agora qualquer legitimidade e por isso se vê atacado por todas as partes, inclusive pelo seu proprio partido. Mas tudo isto apenas foi possivél porque a V Républica o permite. Estamos perante um sistema em que existe um défice democratico, resultante do facto que o grupo que governa nao coincide com o grupo que sofre as consequências dessa governaçao. Talvez seja a Constituiçao que necessite de ser reformada...
Ao contrario do que dizes Francisco, nem todos os sistemas eleitorais funcionam como em França e parecem-me haver alternativas a este problema, digo eu, mas peço a opiniao de pessoas mais competentes no assunto (Duarte Graça?). E no que diz respeito aos dirigentes, também ha outras possibilidades. Cito apenas o exemplo da Dinamarca, onde a maior parte dos lideres politicos veem de uma carreira de sindicalistas.
Depois, convém procurar origens e respostas a esta crise. Nao basta afirmar que existe crise e que portanto é necessario reformar. E preciso também discutir o conceito de “reforma” e a resistência que oferecem os franceses a essa reforma: imagino que ninguém mais do que os proprios franceses,que sofrem esta crise no dia a dia, quer ver a situaçao do pais evoluir e melhorar. Mas uma reforma nao pode ser unilateral e nao pode ser instrumentalizada por aqueles que a promovem, nao deve estar ao serviço de uma classe social. A verdadeira reforma deve ser um concerto entre todos os actores sociais e a reflexao democratica, mesmo extra-parlamentar. Estamos face a uma contestaçao das reformas mas nao da Reforma, aquela que permitiria uma evoluçao dos principios fundamentais da sociedade e da Republica francesa. Se pelo menos as empresas francesas estivessem pelas ruas da amargura, seriam talvez aceitaveis reformas deste tipo, mas a verdade é que todas as empresas do CAC 40 registraram lucros recorde em 2005, o que acentua a clivagem entre classes sociais.
Passando ao dito cujo CPE: a percentagem de jovens no desemprego entre os 19 e os 26 anos é de 22,5% e nao de 30%. Analisemos com mais cuidado estes numeros. A faxa etaria dos 19-26 anos leva cerca de 3 meses para encontrar um emprego enquanto a faixa dos 45-55 anos leva mais do dobro do tempo para se livrar do mesmo desemprego. Ou seja, estes jovens nao parecem ter dificuldade em arranjar emprego. No entanto a sua taxa de desemprego é mais elevada do que a média nacional. Porque sera? Porque o emprego a que acedem é precario e temporario, o que faz com que voltem rapidamente ao desemprego. Se adicionarmos a isto a chegada constante de jovens ao mercado de trabalho, percebemos o numero elevado de desempregados. O CPE é sem duvida a soluçao mais criteriosa para esta problema...
Duvido enfim desse fatalismo e dessa falta de escolha que nos propoe.
Basta virarmos um bocadinho os olhos para o Norte da Europa e para as sociais-democracias da Escandinavia. Um modelo economico marcado por elevadas cargas fiscais e regimes de protecçao social muito avançados. Como é que isto é possivél neste mundo em que "reformas antecipadas, máquinas gigantescas de segurança social estão a falir com o Estado"??
Simplesmente porque esta protecçao social constitui um factor de competitividade nos regimes nordicos, uma vantagem e nao um encargo. Ha alternativas e ha outros modelos economicos viaveis.
E engraçado como se tronou "inevitavél" caminhar para este mundo liberalizado, ou como lhe chamam de forma eufemistica "aberto". Como se a situaçao actual tivesse aparecido, por divina vontade, como se nos tivesse sido imposta e que nao houvesse outra escolha. Mas convém sempre lembrar que a situçao que temos foi criada pelos dirigentes dos Estados modernos e pelas suas politicas, nao nasceu por geraçao espontanea. E é esta situaçao que temos de aceitar, porque nao ha outra escolha, porque "é assim".
A abertura de que falam é a abertura que falta. Mas abertura das mentes para combater o conformismo de dirigentes e politicos, muitas vezes de populaçoes também.
Este texto ja vai longo demais sem duvida. Acabo por nao responder a tudo, mas fica mais uma vez o meu ponto de vista.

“Comme le disait ma grand-mère il existe seulement deux familles dans le monde: ceux qui possèdent et ceux qui ne possèdent pas.”

Sancho Pança, Don Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes

2 commentaires:

Joana Baguenier a dit…

Tenho gostado muito de seguir este debate. Admiro muito a forma equilibrada como discutes Duarte. Não partilhando as tuas convicções é no entanto com grande interesse e prazer que leio os teus textos.

Anonyme a dit…

Caro Duarte,

O teu texto é interessante e merece discussão; mas uma coisa eu não percebi: quererás tu aclarar esta passagem?

"tudo isto apenas foi possivél porque a V Républica o permite. Estamos perante um sistema em que existe um défice democratico, resultante do facto que o grupo que governa nao coincide com o grupo que sofre as consequências dessa governaçao. Talvez seja a Constituiçao que necessite de ser reformada..."

Um abraço, António (Tó) Figueira