1.4.06

Nao posso deixar de reagir a esta analise do Francisco,e vou assim - também eu - dar a minha visao dos acontecimentos dos ultimos meses.
Em primeiro lugar, eu nao afirmaria com tanta certeza que os 2 milhoes de manifestantes, ou até, se quisermos generalizar estes acontecimentos a uma crise social e politica nacional, os 60 milhoes de franceses, estao enganados. Quanto mais nao seja por prudência ou humildade.
Em segundo lugar, nao se trata "apenas" de uma emenda legislativa. Trata-se a meu ver de uma reacçao à politica dos governos franceses dos ultimos anos, reacçao essa que ja apareceu aquando do "Nao" ao referendo constitucional, das manifestaçoes contra a loi Fillon, nas revoltas na banlieue e agora na contestataçao anti-CPE. Politica essa que segue a tendência global para a liberalizaçao e precarizaçao do emprego. Nesse aspecto, penso, ao contrario da imprensa (nomeadamente anlgo-saxa), que a França nao é um pais atrasado ou reaccionario face ao panorama europeu, mas sim um pais na vanguarda. Vanguarda da contestaçao ao novo capitalismo, que ja começou com as greves em Inglaterra do sector publico, dos médicos e do sector metalurgico na Alemanha... e que vai tender a generalizar-se.Estamos apenas a assistir a uma ante-estreia.
Parece-me hipocrita apresentar o CPE como a unica e inevitavel soluçao para o problema do desemprego dos jovens (que na realidade pode até ser causado pela tal precaridade que o CPE visa institucionalizar) quando se pode atacar a exploraçao dos estagiarios, o problema do sub-emprego nas empresas, da falta de formaçao...
E porquê chamar privilégios aquilo que sao direitos, adquiridos ao longo de anos de lutas sociais? Os verdadeiros privilegiados encontram-se noutros sitios...
Nao me parece que se ponha em causa uma meritocracia, eu pelo menos nao ponho. Simplesmente essa meritocracia nao existe sem igualdade de oportunidades, é tao simples quanto isso. So se podem avaliar individuos em igualdade de circunstâncias(nao ha mérito nenhum em ganhar uma corrida a um coxo!!). E sabemos bem que essa igualdade à partida nao existe hoje.
Parece-me também que muita gente esta chocada com a dimensao da contestaçao e dos protestos. No entanto nao se interrogam sobre o "porquê" da dimensao de tais protestos, tomando por pressuposto que as pessoas que manifestam o fazem de forma gratuita e que nao lhes custa perder dias de salario. Nao pensam que talvez estas manifestaçoes apareçam como a unica forma de ser ouvido, devido a uma falta de representaçao pelos seus politicos que sentem os franceses. Eu nao hesitaria em manifestar se soubesse que o partido no governo têm 65% das vozes no Parlamento tendo obtido apenas 35% das vozes a nivel nacional, sem duvida devido a um sistema eleitoral deficiente. Se soubesse que o meu Primeiro Ministro nunca ganhou uma eleiçao. Que os deputados sao dinossauros politicos assim como o Presidente que faz agora 43 anos de politica. Dinossauros saidos directamente das escolas de admninistraçao do estado (Sciences Po e depois ENA), sem contacto com a realidade social francesa. Se soubesse que os partidos de oposiçao foram privados de debate na assembleia e que os sindicatos nao foram consultados para a adopçao da loi sur l'égalité des chances. Tudo isto contribui para que um pequena minoria governe sem o povo, o que para mim, nao representa nenhum ideal de democracia.
Nao se trata de incompreensao, mas sim de compreensao. Compreensao do que implicam estas reformas e das suas consequências para os trabalhadores, das suas vantagens para o patronato. Compreensao da visao unica que nos tentam incutir do mundo e da sociedade. Visao essa que aponta o capitalismo como unica saida viavél, unica opçao "realista". E quando se rejeita tal conformismo passa-se a ser intitulado de romântico, utopico, irrealista e irresponsavel. Esse realismo que hoje em dia nao é mais do que fatalismo, que nos obriga a acreditar que a realidade nao pode ser transformada, apenas repetida.

"A realidade é um desafio.
Não estamos condenados a escolher entre o mesmo e a mesma coisa.
A realidade é real porque nos convida a transformá-la e não porque nos obrigue a aceitá-la. Ela abre espaços de liberdade e não nos encerra necessariamente nas cadeias da fatalidade."

Eduardo Galeano

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