26.11.06

Aqui esta a tão esperada contribuiçao da Joana e do Duarte; um chef-d'oeuvre meus amigos:

"JOANA: Porque é que voltarias a Paris?

DUARTE: É uma cidade bonita, viva, e tão grande que abraça várias épocas…

Como assim?

Vê-se pela arquitectura dos prédios, pelo seu feitio e ornamentos. As ruas estão cheias de pessoas, de árvores, livrarias, salas de cinema, lojas de música, restaurantes, pastelarias e brasseries… tudo locais de encontro.
É uma cidade com charme, uma certa harmonia que leva a imaginação a ver as cenas de cinema/da vida mais banais, as mais alegres, as mais tristes, e as mais românticas.
Não me posso esquecer que foi lá que os meus pais se encontraram, se conheceram, e apaixonaram…

E aventura, Duarte? Eu preciso de viver em constante aventura. Para ti, Paris também tem aventura? *

De repente lembro-me de uma cena – de um filme que não vi – do Bande à Part, de Jean-Luc Godard, em que três jovens correm pelo Louvre dentro e tentam bater um tempo recorde de visita. Isso é aventura. Mas não fui eu quem a viveu, nesta realidade, apenas em sonho.
Apesar de tudo, poderia contar a história que foi carregar com a minha mala, pela noite fora, dentro do metro, até encontrar, horas depois a porta de casa do meu irmão. Ou então algo mais singelo/simples como um mero olhar correspondido com uma bela menina francesa. Isso também é aventura, pôs o meu coração a bater como uma locomotiva!

Devo dizer que tiveste uma atitude corajosa e de verdadeiro aventureiro ao pedires a bomba parisiense, a grande (e à francesa) crepe com nutella e banana. E, desculpa interromper, mas não posso deixar de dizer que, nesta semana parisiense, descobri um Duarte muito observador face a estes pormenores (ou não), digamos que… sentimentais. Infelizmente não lhe fui muito compreensiva: quando ele achava romântico, eu achava chato, parado; quando eu achava divertido, ele achava exagerado, espalhafatoso. Mas há que dizer, sim, que tivemos os nossos momentos de aventura, principalmente quando ele assumia a liderança da expedição, e andávamos 500 metros para o lado oposto (salvou-nos o mapa michelin inúmeras vezes). Aventura da estadia foi mesmo a ida à Dama das Camélias no Palais Garnier, basicamente: sentados no chão, uma hora na bicha, com o rabo frio; correr debaixo de uma chuvada com uma baguette debaixo do braço; o problema informático da bilheteira; os dois bilhetes de visibilité réduite; a interminável subida até aos lugares mais perto do Chagall. Excusado será dizer que, mesmo que só tenha visto metade do palco (e vá-se lá saber porquê acho que o canto que não via era onde aconteceram mais coisas, mas também acho que isso é sempre assim…) valeu a pena. Claro! Foi ver ao vivo os domingos à noite do mezzo. Foi ver ao vivo os DVD’s de ballets que compramos na fnac.

Devo admitir que pela primeira vez o meu sentido de orientação falhou, e não foi só uma vez!
Quanto à Opera, acho que fizeste bem em assistir à peça, mesmo que de longe, o espaço em si vale a pena; digo também que não pude deixar de reparar que foste bem acompanhada. Do meu lado, tive um jantar agradável com os nossos irmãos, tínhamos à mesa tudo para uma boa conversa, cabeças interessantes, queijo e vinho (do bom, perdoo-me o Francisco pela escolha).
No que toca a nossa sensibilidade é verdade que somos diferentes, e ainda bem, mas não exageremos – recordo alguns momentos em que partilhámos opiniões semelhantes. Infelizmente são momentos que não sei especificar, fica o mistério do que é vago mas vivido. Disseste-me que não gostavas das cores da cidade. Já pensaste que, se calhar, fazem parte do seu charme? O que seria Paris se fosse uma cidade toda colorida como o centro Pompidou? É isso… tudo absurdo, como dizias.

Lisboa tem as suas cores, absurdas, sim, já sei que não gostas. Uma semana em Paris deixou-me com falta de cor. Não pude deixar de me … enfadar com a moda que se adivinhava nas montras para este Inverno. Preto, branco, riscas e cinzento. Faltaram-me a claridade branca dos passeios da nossa calçada à portuguesa. Compensou o marcado Outono como nunca vi em mais lado nenhum. Para mim Paris é um filme a preto e branco (não quer dizer que não goste … e Duarte, dispenso a tua crítica aos meus (des)gostos cinéfilos – discussão que, devo dizer, nos acompanhou constantemente pelas nossas promenades) em que caem folhas encarnadas e laranjas. Às tantas fez-me impressão tanta racionalidade naquelas ruas, simétricas, de rigor e equilíbrio demasiado. Exactamente como no liceu: será que até para os prédios fazem problématiques? É que me angustia Paris, cidade sem erro. E quando o erro significa humanidade eu gosto das suas consequências, o absurdo lisboeta.

Tens razão, mas se reparares até Lisboa tem traços assim, sobretudo o que foi construído sob a autoridade do Marquês de Pombal. Gostavas que a cidade fosse mais como o mundo da menina Amélie Poulain?
Agora que me lembro da nossa estadia, penso que poderíamos ter realizado uma verdadeira maratona dos museus!

Museu, museu… é a cidade! Qual Louvre! Por isso, de certa maneira fizemos essa maratona, literalmente, porque andámos sempre a pé! Embora tenha que admitir que me rendi extasiada face à magia do Musée d’Orsay! É que estar em Paris é como um constante relembrar, insistir e encorajar nas coisas a que me dedico todos os dias em Lisboa, mas lá, tudo é “upgraded, como se lá fosse a capital da minha vida: as bailarinas do Degas no Musée d’Orsay; o ballet da ópera de Paris; a loja do Palais Garnier; as lutheries de grandes vitrinas inundadas de moldes de madeira ainda branquinha de violinos, violas e violoncelos…; a loja de partituras em St. Michel com estantes de partituras novas e usadas até ao tecto e a compra de fininhos blocos de feuilles doubles pautadas; os músicos mongóis à frente do Pompidou; os postais do Noureev; o livro de análise e composição em chinês a 4 euros na Shakespeare and Company…

Uma nota mais sobre os museus e calo o assunto. O Musée d’Orsay, velha estação de comboios, tem uma colecção maravilhosa da época impressionista que é de meu gosto pessoal. Mas para além de cidade-museu, Paris é essencialmente uma cidade eclética, desde os bairros jovens e animados como o são Montmartre, le Marais, St. Germain etc… ao quotidiano, pacato e chic do 16ème arrondissement. E no meio disto tudo sempre a cultura, acima do resto. Com a Joana e o Francisco tive a oportunidade de sair à noite umas quantas vezes, ver espectáculos, ir ao cinema, conversar em bares, que fizeste tu com o teu irmão?

Pois é, ainda não te contei. Com o meu irmão tive uma revelação, uma primeira vez. Uma experiência que não te aconselho a fazer assim de qualquer maneira porque marca qualquer um. Duarte, o meu irmão levou-me a comer o meu primeiro kebab. No último dia à noite na rue mouffetard experimentei essa requintada iguaria para depois irmos ver o Benfica na champions para um pub com os amigos dele. Uma noite tipo “melting pot”, repleta de experiências étnicas. De francês só teve mesmo a rue mouffetard com as suas pequenas lojinhas a fechar ao fim do dia. De certeza não te esqueceste também do nosso passeio, os três, no Marais, absortos pelas lojas de postais e as de roupa em segunda mão em que nos esforçamos por encontrar o casaco à Corto Maltese que tanto desejaste! Ou quando vocês se chocaram por eu gostar duns ténis só porque eram cor-de-rosa com riscas verdes. Não percebo! E Versailles, lembras-te? Fomos também com o Francisco e o amigo dele. Foi giro, mas tinha esperança de encontrar as passagens secretas que descobri na Géo…

Haw haw haw, como se riria Rasputine, amigo de Corto Maltese. Bastou-me a descrição do teu irmão para perceber que esse Kebab seria uma aventura. Lembro-me de ele dizer que nunca se deveria comer um desses em frente a uma rapariga bonita, seria o suicídio garantido de uma possível relação. O passeio pelo Marais, e mais tarde pela cidade fora foi agradável. Recordo que estava um fim de tarde aconchegante, o sol estava quentinho, e a luz bonita, o que era bom tendo em conta o tempo errático com que nos deparamos nalguns dias. Guardo sobretudo a memória do quão acolhedor eram certos bairros, dos seus parques cheios de pessoas, de crianças saídas da escola, de famílias, e de namorados sentados em bancos ou estendidos na relva (ah, isto lembra-me que ainda estou para ver o Splendor In The Grass com a Natalie Wood e o Warren Beatty).
Enfim, mais que estar em Paris, foi bom estar em companhia de amigos, de família, e de pessoas que embora não o sejam, fazem parte desse mundo pequeno, seguro e confortável que é a família. Lembro também que não estava no melhor dos meus dias, e que apesar disso, a estadia correu bem graças a essas pessoas. Afinal, o que faz a cidade não é o local em si mas as pessoas que o habitam.
A Paris, cidade viva, local eterno de encontro entre amigos, e apaixonados… "

8 commentaires:

Joana Baguenier a dit…

Que belo texto !

Duarte Valente a dit…

Bem, cumprimos o prazo de publicação, e o senhor Duarte o seu, de edição. Espero que corresponda minimamente com as expectativas que tinhas.
Um abraço grande,
Duate.

Bernardo Sousa a dit…

Eu comi muitas vezes Kebab com a minha namorada!=P Acima de tudo, adoro Lisboa! Mas vá, Paris também não é mau.

Pedro a dit…

Estou com a Joana,belo texto,gostei de ler. Pena saber que no meio de tanta coisa bonita há quem estrague tudo para querer ver o benfica...

maria a dit…

já tinha saudades desde blog em activo...agora, caro duarte (o rolo) já não tens desculpa para não continuar!
Quanto ao texto, serviu para completar, e muito bem, o relato que o duarte me fez da viagem, naquela tarde no magnolia, ti ricordi?
Também não concordo muito com essa teoria do kebab..:P
bejinhos aos 3: o primo, a amiga do primo e irma do amigo, o duarte!

maria a dit…

tenho um pedido de desculpas a fazer...afinal o blog ja estava activo, eu é que fui directa para este texto e nem vi o resto...e já agora, podiam ter avisado!eu que refilei tanto com a inactividade...que falta de consideração, não é assim que se fidelizam leitores!lol
ja agora, um bj tb p o francisco, e o seu regresso a estas paragens.
E já chega.

Francisco Valente a dit…

Pedro - desde que seja para ver o Benfica a perder...

Pedro a dit…

Francisco - Bem visto.
Maria - Perdi a conta na distribuição de beijinhos,sem um único para mim. Está certo...