10.12.07

almada

"Nenhum de nós tem receio do que seja custoso e difícil desde o momento que dependa de nós apenas vencer o difícil e o custoso; mas se a todo o momento não temos diante de nós senão o impossível, acabamos finalmente por ficarmos convencidos. Mas qual é afinal esse impossível? Qual é? É viver! É de viver que se trata. E é viver o que é impossível em Portugal.
Nesse caso dir-me-ão: Se é impossível viver aqui em Portugal, vai-se para o estrangeiro. Não há dúvida, era uma solução. Era mesmo a única. Simplesmente, também é impossível. Só não é impossível para essa chusma de desgraçados que vieram a este mundo para não saberem nunca nada de nada, essas levas de degredados sem escolta, os quais abandonaram as terras ingratas onde nasceram e trabalharam e que, derrotados pela realidade e cheios de razão, vão para longe à procura de terras estranhas mais leais do que as da sua própria Pátria; mas nós, para aqueles a quem a vida apontou uma consciência dentro de nós é impossível esse remédio salvador. Nós ficamos! Nós ficamos aqui para tentar destruir o "Impossível" em Portugal!"

José de Almada Negreiros, Modernismo in "Obras Completas".

21.11.07

foucault

"les medias ne sont pas les simples spectateurs mais des acteurs des conflits sociaux" (in "Les médias, gardiens de l'ordre social", Le Monde Diplomatique)

20.11.07

A França volta a andar nas bocas do mundo por causa da sua agitação social. Hoje manifestaram em conjunto os estudantes do ensino superior e do secúndario, os trabalhadores dos caminhos de ferro e dos transportes e um grande número de funcionários (professores, correios, hospitais...). Os primeiros contestam a nova reforma de autonomia das faculdades, os segundos a reforma dos regimes especiais e os ultimos reinvindicam aumentos de salários e a defesa do seu estatuto. Diversas manifestações ocorreram hoje por todo o pais, reunindo varias dezenas de milhares de pessoas.
Mais uma vez, exclama o mundo, a França resiste às reformas e o seu povo retrógrado luta contra as mudanças necessárias para o desenvolvimento do pais. Mais uma vez, o país onde a rua governa se levanta contra o seu próprio governo, saído há pouco das urnas. Os vários médias internacionais continuam portanto a veícular esta imagem de uma país de grevistas e funcionários "privilegiados", incapazes de enfrentar a realidade do mundo moderno e as suas consequentes e necessárias mudanças.
Segundo um estudo publicado ha alguns dias pelo jornal Libération ("Le mythe d'un pays gréviste"), a França é apenas 11° primeiro em dias não trabalhados por ano por motivo de greve, numa classificação que reúne os 18 países mais industrializados. A França posiciona-se bem atrás da Italia (1°), dos diversos países escandinavos, do Reino-Unido (7°) e mesmo dos EUA (8°)! E no entanto, os principais meios de comunicação continuam a apelidar a França de país do "direito de paralisar" ou de nação da "guerra social".
Acusa-se também os sindicatos franceses, conservadores e imobilistas, de não saberem dialogar e de procurarem o confronto social. Mas, ao privar os sindicatos de qualquer possibilidade de negociação ou dialogo à priori (ou seja antes dos conteúdos das novas reformas serem decididos e votados), o próprio governo de François Fillon dá provas da sua intransigência e autoritarismo, provoca e procura o conflito. Desta forma, e aproveitando a influência dos médias globais, inicia um processo de descredibilisação dos sindicatos e dos seus membros e cria um conflito entre os ditos "privilegiados" da função pública e o resto dos trabalhadores.
Assim sendo, Monsieur Sarkozy consegue fazer esquecer que nesta França arruinada e endividade como bradam os jornais e televisões, o Presidente da Républica tem agora direito a um novo salário (aumento de 172%) e as empresas do CAC 40 ( grupo das 40 empresas melhor cotadas na bolsa) geraram mais uma vez lucros recorde no valor de 88 biliões de euros. Mas não são privilegiados...



bercy


tarde de sol, passeio por Bercy e pelo XIIème arrondissement. Ora ai esta uma zona que não aparece muito nos guias turisticos nem costuma ser um dos sitios mais frequentados. E no entanto vale a pena assistir à revolução urbanistica que representa bercy, levando-nos para um paris noutro espaço e tempo: as pequenas ruas apinhadas dão lugar a espaços vastos e vazios, os prédios haussmanianos a novas construções transparentes e futuristas, criando um jogo de espelhos e reflexões entre os dois elementos dominantes, o vidro dos prédios e a àgua do Sena.
Que bem que se podia viver aqui, respirando outro ar, com espaço, indo ao cinema ao Mk2 Bibliothèque e à Cinemathèque, estudando na fabulosa BNF (tão fabulosa que era capaz de ficar dias a fio sentado naquela plataforma de madeira a olhar para as quatro torres e o jardim interior sem me fartar), almoçar no Lina's, ir a exposições no Les Frigos, noites no Batofar...

9.9.07

Depois da vitoria da aguerrida Argentina contra a humilhada selecção francesa de raguebi, parto do rond-point de l'Étoile em direcção a casa. Com alguns dos mais fiéis companheiros de viagem no bolso (The Strokes, Jeff Buckley, David Bowie, The Rakes...), desço os Champs-Élysées, invadidos por multidões, até atravessar o rio, ladeado pelos Petit e Grand Palais, e vigiado pelo gigante de Gaulle. Sigo ao longo do Sena, até ao Musée d'Orsay e, passando pela residência de Monsieur le Premier Ministre, chego finalmente a casa.
Paris foi feita para nos sentirmos pequenos. Só pode. Pelo menos esta parte de Paris. Isto só podia ter começado com as ideias de uns mégalómanos absolutistas. Tanta grandeza, tanta monumentalidade, tanta beleza que nos faz esquecer que tudo isto foi obra de mão humana e nos faz sentir pequenos, minusculos, insignificantes...Sem lugar para o improviso, para o acidente, para a imperfeição, perdemos em humanidade.
Mas ao mesmo tempo temos a sensação de tocar ao de leve o divino, de atingir por instantes a transcêndencia e fazer parte de algo muito muito maior do que nos.
Tudo isso leva-me ainda para outros caminhos: será que numa cidade como esta, alguém ainda conta? sera que alguém deixa marca, que alguém faz a diferença?
Ou somos "todos diferentes mas todos iguais"?

6.9.07

rugby 2007






















Pois é, está quase a começar o Campeonato do Mundo de Ragebi 2007, em França, onde participam os nossos já muito famosos "Lobos" (com presença assidua nos media franceses). A importância do evento esta a mobilizar a sociedade francesa em geral e a espectativa é grande para o pontapé de saida, amanhã, com a anfitriã a receber a Argentina.
Fora das quatro linhas, o impacto do evento leva o governo francês e a organização a querer dar uma boa impressão, e não só. Este campeonato sendo (a seguir ao fracasso para trazer os Jogos de 2012 para Paris) um dos eventos desportivos com mais impacto desde o Mundial de futebol, a esperança é mesmo a de uma vitoria gaulesa para voltar a produzir o "efeito 98", espécie de euforia generalizada com efeitos visiveis no consumo e na confiança das familias francesas, que esquecem assim a esfera politica e os seus combates por uns tempos.
Entretanto, na espera dos primeiros ensaios, a policia esta a proceder a uma expulsão geral dos muitos S.D.F. franceses (Sans Domicile Fixe, vulgo sem-abrigo), nomeadamente daqueles instalados em tendas dos Médecins du Monde por todo Paris. Começou a limpeza à pressa antes do Campeonato, mas e depois da final?

26.8.07

mr.hulot

eça

"Eu não direi, como Lord Beaconsfield, que no "mundo só há de verdadeiramente interessante Paris e Londres, e todo o resto é paisagem". É realmente dificil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou ver no movimento social da Alemanha um fresco regato que vai cantando por entre as relvas altas.
Não se pode negar, porém, que a multidão contemporânea tende para esta opinião do romanesco autor de "Tancredo" e da guerra do Afeganistão: nada vê no universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa coisa cintilante e vaga que pode compreender desde as criações da arte até aos menus dos restaurantes, desde o espirito das gazetas até ao luxo das librés - e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se dela, onde ela é mais original, mais complexa, mais rica, mais episódica, em Paris e em Londres: ao resto da Terra pede apenas cenários de natureza, relíquias de arte, trajes e arquitecturas...
Em Roma contempla os ornamentos do passado - o Coliseu e o Papa; em Madrid interessam-no só os Velasquez e os touros; ninguém viaja na Suiça para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar diante dos Alpes. E assim, para a turba humana, mais impressionavél que crítica, o mundo aparece como uma decoração armada em torno de Paris e Londres, uma curiosidade cenográfica que se olha um momento, pedindo-se logo toda a atenção na tragicomédia social que palpita ao centro.
Isto é uma superstição. Mas se realmente, o mundo fosse apenas uma paisagem acessória - a devoção burguesa por Paris e Londres, residências privilegiadas da humanidade criadora, seria justificável: porque, na verdade, o interesse do universo está todo na vida, na sua luta, na sua paixão, no seu cerimonial, no seu ideal e no seu mal. O Sol, nascendo por trás das Pirâmides, sobre o futuro deserto da Libia, forma um prodigioso cenário; o vale do Caos, nos Pirinéus, é de uma grandeza exuberante; - mas, todos estes espectáculos hão de ser sempre menos interessantes que uma simples comédia de ciúmes, passada num quinto andar. Qua há, com efeito, de comum entre mim e o Monte Branco? Enquanto que as alegrias amorosas do meu vizinho, ou os prantos do seu luto, são como a consciência visível das minhas próprias sensações."

Eça de Queiroz, Cartas de Paris

13.7.07

le tour de france

Volta a febre do tour, uma vez por ano é assim: os aficionados à borda da estrada, as caravanas estacionadas, as motas e helicopteros em perseguição, as quedas espectaculares, os fatos de lycra, a capa do l'Équipe... E lá segue a massa uniforme do pelotão, de etapa em etapa, partindo de Londres, passando pela Bélgica e acabando em Paris, descendo os Champs Élysées. E o mais feliz de todos, leva a camisola amarela.

10.7.07

Encontros

A primeira senhora bonita e conhecida que vi em Paris foi Charlotte Rampling. Parei na rua para ela descer tranquilamente os degraus do hotel Raphäel no 16ème e poder passar à minha frente, ainda me agradeceu com o olhar. Na altura creio que ainda estava disponível... Ou talvez não. Depois foi Emmanuelle Béart por dois segundos, de passo apressado em Odéon e completamente tapada por gabardine, lenço na cabeça e óculos. Mais frequentemente, vejo Anna Karina quase dia sim dia não no 6ème, o que me deixa muito feliz. De resto, algumas personagens televisivas mais desinteressantes, ou Jonathan Littell, autor de Les Bienveillantes. Já vi o Chico Buarque em Saint-Germain e o Louis Garrell a tomar café perto de Saint-Michel. Mas o que interessa é que todos os dias vejo Paris.

Olhares

Um posto curto para dizer o essencial - vivam as trocas de olhares em Paris...

9.7.07

encontros e desencontros

Haverá cidade de maior encontro e desencontro do que Paris?
Em primeiro lugar, encontros famosos: há quem se cruze regularmente com Emmanuelle Béard no Cinquième arrondissement (não é Vera...?), quem veja por segundos Charlotte Rampling, quem encontre numa festa Pete Doherty ou beba uma cerveja no Shebeen com Johnny Borrell.
Eu, muito modestamente, vi uma vez a cantora Pink e umas quantas groupies - cristas e furos por toda a parte, perfeita visão do cruzamento entre uma arara e um passador - sentadas num café na Île-Saint-Louis em dia de concerto no multi-usos de Bercy.
Também tive o prazer de cruzar o ex-Primeiro-Ministro Dominique Galouzeau de Villepin, que atléticamente fazia o seu jogging matinal à volta do hipódromo de Longchamp, com o télémovél colado à orelha e os guarda-costas colados ao cu.
Hoje passei na rua pelo Presidente de Região, Jean-Paul Huchon, recentemente envolvido em escândalos de corrupção (devemos deduzir que não foi desta que foi dentro...).
Para além de encontros famosos, encontros inesperados : o amigo que não vemos há anos e que encontramos numa noite na Rue de La Huchette :"Ah, vim cá passar umas fériazinhas...Ainda tás cá?", colegas de liceu que saem do RER ou alguém que nos telefona porque vem a Paris de fim de semana: "Vamos jantar a qualquer lado?".
Mas os melhores encontros e desencontros, são aqueles que duram um segundo, um piscar de olhos, com sorte umas palavras. É a mademoiselle que está sentada à nossa frente na carruagem de metro e quando damos por nós estamos a pensar :"Até onde é que será que ela vai? saio na mesma estação do que ela ou não?".
São estes momentos que fazem crescer a imaginação, pois essa curta troca de olhares nunca há de estar sujeita ao julgamento do real e deixa-nos assim acreditando na inocência de um sonho.

sobre a nova reforma penal R. Dati

"C'est un projet qui dit au délinquant : "Tu n'as que ce que tu mérites et tu serviras d'exemple à ne pas suivre." Il marque l'érosion de la philosophie de la réhabilitation, qui était inscrite dans notre tradition pénale, et la montée en puissance de la dissuasion."

"(...)Pourtant, on n'a jamais vu, dans l'histoire, un recul de la criminalité par l'augmentation de la peine. Le bagne ou la transportation aux colonies n'ont pas fait reculer au XIXe siècle le "péril récidiviste", bien au contraire."

"(...)Nos cheminements comparés sont troublants. Le paradoxe est que nous nous rapprochons du modèle américain au moment où celui-ci est remis en question devant le coût exorbitant de la prison et le doute sur son efficacité. Aux Etats-Unis, le tout-carcéral a été symbolisé par le slogan des conservateurs, opposés à la réhabilitation : "Nothing works", rien ne marche contre la délinquance. Il a donné une équation simplissime : si la punition est douce, le crime augmente, si elle est dure, le crime diminue. Les libéraux ont eux aussi adhéré à cette doctrine car ils critiquaient le nanny state, l'assistance de "l'Etat-nounou", la conception thérapeutique de la peine. Une explosion carcérale sans précédent a suivi."

"(...)On ne peut rester sur l'idée selon laquelle le délinquant qui a commis une faute doit payer en étant seul responsable de ses actes. L'Etat doit prendre sa part de responsabilité. Il doit accompagner ce projet répressif d'une politique publique d'inspiration sociale et éducative. Albert Camus l'avait dit au sujet de la peine de mort : la dissuasion ne règle rien. Aujourd'hui nous ne devons pas laisser croire que la dissuasion carcérale va réduire la criminalité. Il faut évidemment réprimer les actes. Mais aussi déployer une pluralité d'initiatives pour s'attaquer aux causes de la délinquance."

Denis Salas, Le Monde, 8.7.07

brasserie lipp

Passando por St-Germain des Près, reparo pela primeira vez numa folha de papel espetada à entrada da célebre Brasserie Lipp, fundada no fim do século anterior, rendez-vous de várias gerações do Paris artístico, intelectual e politico, onde se fez e desfez o mundo inúmeras vezes e grande parte das decisões estratégicas da Vème République foram tomadas.
E dizia assim : "Tenue correcte éxigée pour déjeuner et dîner" ou na versão inglesa "No shorts allowed".
Passo a traduzir: americanada de ténis New Balance, calções GAP e camisa Ralph Laurent com maquina fotografica ao pescoço não entra.
Será que G.W. Bush poderia entrar na Brasserie Lipp, de visita a Paris? e será que o Presidente Sarkozy vai tomar medidas face a tais discriminações feitas às minorias visíveis?

secret painting (ghost), carl andré, 1968

Na parede um quadro preto e a pequena mensagem:

"The content of this painting is invisible; the character and dimension of the content are to be kept permanently secret, known only to the artist."

Hamburger Kuntshalle, 1.6.07

6.7.07

2.7.07

Continuando nesta onda musical decidi partilhar convosco duas novas descobertas por terras francesas, surpreendentes de humor e ironia.










O primeiro, um rapper francês, mais um, Kamini. Difundido através da internet, o seu sucesso deve-se a musicas como Marly-Gomont e J'suis blanc, em que escreve, não sobre a vida dificil na banlieue, nos HLM e "cités", mas sobre a sua vida numa pequena aldeia francesa, perdida na provincia e esquecida por todos. Deixo-vos uma amostra com a letra de Marly-Gomont, vale a pena ouvir um bocado no site:

"Dédicacé à tous ceux qui viennent des p’tits patelins,
Ces p’tits patelins paumés pour qui personne n’a jamais rappé,
Même pas un flow,

Ces p’tits patelins paumés que même la France elle sait pas qu’ils sont là chez elle,

Les p’tits patelins paumés que personne ne connaît, même pas Jean-Pierre Pernault


J’m’appelle Kamini,

J’ viens pas de la Téci,

J’viens d’un p’tit village qui s’appelle Marly Gomont,

A Marly Gomont, y’a pas d’béton, 65 ans la moyenne d’âge dans les environs,
1 terrain d’tennis, 1 terrain de basket,
3 jeunes dans l’village donc pour jouer c’est pas chouette,
J’viens d’un village paumé dans l’Aisne, en Picardie,

Facilement , 95 % de vaches, 7 % d’habitants, et parmi eux,

Une seule famille de noirs, fallait qu’ce soit la mienne, putain un vrai cauchemar.

J’ai dit à mon père « On aurait pu aller s’installer à Moscou, non? On aurait pas trop été dépayser par la température et ni par les gens ».
Il m’a répondu : « hé et comment ça, mais tu te moques de moi toi, mais ça va aller hein »

Tu parles, j’avais 6 ans, premier jour d’école et ben j’ai chialé à cause d’ces p’tits cons là bas, t’sais comment y m’ appelait ?
« Hé bamboula, Hé Petito, Hé Bamboula, Hé l’Noiraude hé ».

Dans la bouche des enfants, réside bien souvent la vérité des parents.


J’viens pas d’la cité, Mais le beat est bon,
J’viens pas d’Panam,
Mais d’Marly Gaumont
Y’a pas d’bitume là bas,
C’est qu’des pâtures,
mais c’là n’empêche que j’ai croisé pas mal d’ordures.


A Marly Gaumont, les gens y parlent pas verlan,

« Y parlent à l’endroit comme ça, c’est ben suffisant »

Des fois y t’aiment bien
« J’aime pas les arabes hein, J’aime pas les Noirs, mais toi j’t’aime bien, même si t’es Noir »
D’temps en temps, y font d’la politique aussi, avec plein de philosophie.
« D’façon moi j’dis, tous des pourris hein».

Dans les p’tits patelins, faut pas être cardiaque, ah ouais sinon t’es mal,

Faut traverser vingt village en tout 50 bornes pour trouver un hôpital que dale,

Là bas y’a rien c’est les patures.
Des fois y’a un match de foot le dimanche.
Le stade c’est une pâture, sur lequel les lignes sont tracées, les buts sont montés et les filets et dans l’équipe du coin,
Y’a toujours un mec qui s’fait surnommer Kéké « Allez Kéké, Allez Kéké »

Si c’est pas Kéké dans l’équipe d’en face, y’a toujours un mec qui s’appelle Biquette « Allez Biquette, allez biquette »

Une journée type dans l’coin, le facteur, un tracteur et rien... 'fin si une vache d’temps en temps
(...)"





Para além de Kamini, os Fatals Picards, representantes da França e penultimo lugar no ultimo Festival da Eurovisão (o que só abona em favor deles, diga-se de passagem...), espécie de Ena Pá 2000 franciús, juntam musicas com piada a letras de chorar a rir, tal como Mon Père était tellement de gauche num grandiosos album, "Pamplemousse Mécanique":

"On ne choisit pas son enfance, on m’a pas laissé être droitier
Mon père m’emmenait jamais au square mais au réunion de comité


Mon père était tellement de gauche qu'on habitait rue Jean Jaurès

En face du square Maurice Thorez avant d’aller vivre à Montrouge


On a été en U.R.S.S. l’hiver , les pays de l’est c’est mieux l’hiver
On voit bien mieux les bâtiments, les nuances de gris ça flashe sur le blanc
Devant la statue de Lenine, pour nous c’était le grand frisson
Moins 24 c’était pas terrible et les chapkas étaient en option

Mon père était tellement de gauche que quand est tombé le mur de Berlin
I
l est parti chez casto pour acheter des parpaings.

On mangeait des Lenin’s burger, fallait vraiment faire attention

Il y avait du choux une pomme de terre, la viande elle était en option

On achetait du coca Kolkose, approuvé par le comité

Ça devait soigner la silicose, on s’en servait pour désherber

On regardait pas la contrebande, on regardait pas la corruption

La Sibérie c’était disneyland, le discernement en option.


Mon père était tellement de gauche qu’à son mariage dans l’eglise

On chantait l’internationale, les femmes portaient des faux cils


Mon père était tellement de gauche, on a eu tout pleins d’accident

Il refusait la priorité à droite systématiquement.

Les copains se foutaient de moi tout le temps, car à l’école au premier rang
J
’avais mes lunettes de Brejnev et le dentier d’un Tupolev


Mon père était tellement de gauche, qu’en 81 il croyait que ça changerait

Je crois même qu’il en rêvait en 2002 en allant voter

Et même si tout ce que je raconte n’est pas tout à fait vrai

Le socialisme comme paradis nous on y croyait
Mon père était tellement de gauche, que lorsqu’il est parti
La gauche est partie avec lui.
"

28.6.07

Paris Calling


O entusiasmo crescente pela musica rock dos ultimos anos permitiu a nascença de uma cena rock (o universo musical francês sendo em grande parte dominado pelo Rap e Hip-Hop desde o principio dos anos noventa) com grupos como Les Plasticines, Naast ou The Parisians que despontou finalmente para o grande publico com a compilação Paris Calling.
Geração crescida a ouvir The Libertines e The Strokes, "les bébés rockers" como são chamados em França, revendicam-se de The Clash e The Kinks, da mais pura tradição rock'n roll de terras de sua majestade.
Querendo ser mais ingleses que os ingleses, os seus sotaques fazem muitas vezes rir e o seu look levado ao extremo é inconfundivél.
Ouvir da boca de meninos mimados parisienses dizer que se inspiram do punk e dos seventies vale pelo menos pela ousadia...Entretanto podemos sempre vibrar na Flèche d'Or, no Truskel ou no Tryptique com Loser, Shake Shake ou Tu Te Trompes. Será que é isto o rock caviar?

27.6.07

Paris, la nuit


Paris é mais Paris de noite. Com os seus timidos candeeiros pautando a alternância entre a luz e a escuridão dos "trottoirs" pretos, das ruas vazias, dos prédios haussmanianos, passear em certos bairros parisienses à noite é uma experiência de solidão muitas vezes impossivél na roda viva do dia a dia.
No silêncio unico, na monumental cidade nocturna, Paris transforma-se num filme a preto e branco, um clássico que - como qualquer clássico - nunca se perde.

22.6.07

Há festa na aldeia!














Dia 21 de junho, como todos os anos, participamos em mais uma Fête de la Musique, verdadeiro "bordel"programado.
Musica para os grandes, para os pequenos, musicas do mundo, bandas de tipos "cabeludões" - como dizia um brasileiro que estava connosco - aos berros, de betinhos a brincarem às rock stars, fanfarras e afins.
A palavra festa ganha todo o sentido nesta Fête de la Musique, onde os avós se cruzam com os netos, os pais dançam com os filhos, onde todos se tornaram amigos e se tratam por "tu" e bebem da mesma garrafa. Através, com e pela musica.


20.6.07

Regresso

Pois é, não estivemos propriamente muito activos ultimamente, não foi?
Paris não perdeu o interesse, não deixámos de viver novas experiências nem perdemos a vontade de escrever. O interregno poderias-se explicar por falta de disponibilidade, de assiduidade também ou talvez por muitas outras razões.
Não interessa, estamos de volta para um novo episodio das Cartas de Paris. E as novidades são muitas por terras gaulesas : Presidente novo, Primeiro-Ministro e Governo novos, Le Pen e Front National em vias de extinção, "équipe de France" nova (sem Zizou!)....Será este o começo de uma nova era, pós-Chirac?

Estaremos cá para o viver e relatar; pelo menos assim o espero,

Duarte

5.1.07

Pendus Politiques

A Radio Nova, radio francesa algo "hype" ou "tendance" como diriam os franceses "branchés" (para nos a palavra escolhida seria provavelmente "alternativa", embora ainda não perceba o verdadeiro significado desta expressão...) tem um programa matinal em que se diverte a "enforcar" homens politicos, provavelmente inspirada pela recente condenação de Sadam Hussein.
Passo a explicar: a emissão tem um proposito comico-satirico e diverte-se comentando excertos de discursos fora de contexto de homens politicos da actualidade. Consoante o ridiculo das suas intervenções (avaliado imparcialmente pelos locutores, como era de esperar...), são condenados ou não à forca.
Brincadeira de mau gosto ou piada espirituosa?


P.S.: se percebesse alguma coisa de hyperlinks dava-vos o site da estação, mas acho que para isso preciso da ajuda do Francisco...
Revoltante.
Ontem passei no boulevard Saint-Michel e reparei que havia uma loja nova. No lugar da antiga livraria de filosofia , vandalizada brutalmente pelos manifestantes anti-CPE o ano passado, abriu uma "Delaveine", loja de roupa chunga! Em plena place de la Sorbonne!
Um monumento ao consumismo na praça da sabedoria.

Sondagens

Começam a sair as primeiras sondagens sobre as eleições presidenciais:
Ségolène 34%,
Sarkozy 32%,
Le Pen 15%.

C'est chaud!!

2.1.07

Passagem de ano em Paris

Em primeiro lugar um bom ano a todos e a todas!
Este ano entrei em 2007 uma hora antes de todos aqueles que ficaram em Portugal porque, pela primeira vez, passei o ano em Paris. Isso está feito.
Devo dizer que a passagem de ano por terras gaulesas nada fica a dever à nossa Lisboa: o fogo de artificio é pouco, as pessoas nas ruas também (estava a chover torrencialmente algumas horas antes da meia-noite) e a festa não entusiasma.
Também devo dizer que não fui à procura dos centros nevralgicos da agitação. E isto das passagens de ano têm mais a ver com quem se està e com o ambiente em redor, nem sempre com cidades ou paises.
De qualquer maneira fica a nota: passei o ano em Paris.