26.8.07

eça

"Eu não direi, como Lord Beaconsfield, que no "mundo só há de verdadeiramente interessante Paris e Londres, e todo o resto é paisagem". É realmente dificil considerar Roma como um ninho balouçando-se no ramo de um ulmeiro, ou ver no movimento social da Alemanha um fresco regato que vai cantando por entre as relvas altas.
Não se pode negar, porém, que a multidão contemporânea tende para esta opinião do romanesco autor de "Tancredo" e da guerra do Afeganistão: nada vê no universo mais digno de ser estudado e gozado do que a sociedade, essa coisa cintilante e vaga que pode compreender desde as criações da arte até aos menus dos restaurantes, desde o espirito das gazetas até ao luxo das librés - e, muito racionalmente, corre a observar a sociedade, a penetrar-se dela, onde ela é mais original, mais complexa, mais rica, mais episódica, em Paris e em Londres: ao resto da Terra pede apenas cenários de natureza, relíquias de arte, trajes e arquitecturas...
Em Roma contempla os ornamentos do passado - o Coliseu e o Papa; em Madrid interessam-no só os Velasquez e os touros; ninguém viaja na Suiça para estudar a constituição federal ou a sociedade de Genebra, mas para embasbacar diante dos Alpes. E assim, para a turba humana, mais impressionavél que crítica, o mundo aparece como uma decoração armada em torno de Paris e Londres, uma curiosidade cenográfica que se olha um momento, pedindo-se logo toda a atenção na tragicomédia social que palpita ao centro.
Isto é uma superstição. Mas se realmente, o mundo fosse apenas uma paisagem acessória - a devoção burguesa por Paris e Londres, residências privilegiadas da humanidade criadora, seria justificável: porque, na verdade, o interesse do universo está todo na vida, na sua luta, na sua paixão, no seu cerimonial, no seu ideal e no seu mal. O Sol, nascendo por trás das Pirâmides, sobre o futuro deserto da Libia, forma um prodigioso cenário; o vale do Caos, nos Pirinéus, é de uma grandeza exuberante; - mas, todos estes espectáculos hão de ser sempre menos interessantes que uma simples comédia de ciúmes, passada num quinto andar. Qua há, com efeito, de comum entre mim e o Monte Branco? Enquanto que as alegrias amorosas do meu vizinho, ou os prantos do seu luto, são como a consciência visível das minhas próprias sensações."

Eça de Queiroz, Cartas de Paris

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